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POR ONDE VOCÊ ANDA, DR. RENATO COSTA MONTEIRO FILHO?


Sou Renato Costa Monteiro Filho, 68 anos, nascido em Guaxupé em 5 de agosto de 1954. Sou médico. Meus pais Renato Costa Monteiro (médico) e Maria Amélia Ribeiro do Valle nasceram em Guaxupé e, depois que meu pai terminou a residência médica em São Paulo, foram se instalar em Araçatuba, em 1953. Tiveram cinco filhos e todos nascidos em Guaxupé. Mamãe ia a Guaxupé para ter a assistência médica do seu pai, Dr Mario Ribeiro do Valle. Sou primogênito e com meus irmãos, Mario, Carlos e Marcos tivemos intervalos de quase 2 anos. Após cinco anos, uma surpresa: o nascimento de uma irmã, a Ana Maria.


Nossa infância foi maravilhosa, pois passávamos o ano escolar em Araçatuba e as férias em Guaxupé com os avós e tios. Vô Mario e Vó Lalana (Mariana Carolina Magalhaes Gomes) - do lado materno, e Vô Caluta (Carlos Costa Monteiro) e tia Berta Rios do lado paterno. Avós maravilhosos e complementares. Vivi muitas aventuras que dariam, sem dúvida, matéria para um belo livro. Me lembro por exemplo de uma viajem de trem com meu irmão Mario.


Devíamos ter entre 8 e 10 anos, com baldeação em Campinas, onde pegamos a Mogiana de leito chegamos a cinco da manhã na estação de Guaxupé. Na casa dos avós tivemos uma surpresa: meu avô tinha construído um monjolinho instalado na sala para nos receber. Com os tios (Zé Carlos meu padrinho, Sylvio e Marinho) aproveitavamos muito as fazendas de modo cotidiano com passeios a cavalos, pesca, caça, etc. Aprendi muito com meu avô Mario a amar a terra, as lavouras de café e a natureza. Eu admirava muito o seu jeito de compartilhar medicina e a natureza. Ele era um doutor também para a natureza antes mesmo que o termo “ecologia” tivesse nascido. Não me esqueço das aventuras de ir uma vez ao ano em busca de uma bela palmeira com o seu palmito onde cortávamos no mato e trazíamos o palmito até a sede. Um gosto inesquecível e adorávamos comer. Ele sempre fazia questão de plantar novas palmeiras em reposição e as vemos até hoje nas fazendas.


Além disso, aprendi carpintaria com meu avô Mario. Fizemos juntos objetos de madeira, que guardo até hoje, bem como uma caixa para guardar pedras e minérios preciosos que ele nos ensinou a reconhecer no campo. Seu porão-oficina era um verdadeiro ‘atelier’ com tudo que se precisava para trabalhar madeiras. Fazíamos também pratos, caixas e até gaiolas.

Na minha adolescência, durante as férias, aproveitei muito em Guaxupé. Isso graça ao meu avô, Caluta, e minha tia Berta, com os primos Carlão e Eza. Meu avô tinha muita sabedoria e nos acompanhava nos bailes que, aliás, eram organizados pela minha tia Berta. Nestes bailes, como o famoso o das Orquídeas. Ele nos dava conselhos de como se tornar um gentleman convidando, por exemplo, uma moça que estava tomando chá de cadeira para dançar. Estava sempre de terno de linho 120 branco muito elegante e, no fim da sua vida, meu ofereceu um que tenho até hoje - veja foto com meu filho. Ele nos acolhia no seu quarto às três da manhã para conversar e comer algo antes de ir dormir, sempre depois de voltarmos das boates da cidade, como a Churrascaria Bambu. Na verdade ele ficava acordado até tarde lendo. Era um homem muito culto. Seu quarto era, na realidade, uma verdadeira biblioteca.


Fiz faculdade na cidade de Botucatu, Faculdade de Medicina da UNESP, em 1972, onde também cursei residência por 4 anos, sendo dois de clínica médica e dois de nefrologia. Em 1982, resolvi fazer doutorado em Paris, na área de pesquisa em Nefrologia. Essa decisão foi, sem dúvida, alimentada pela desilusão de perder de pacientes. Primeiro, a perda da minha mãe muito jovem, aos 42 anos, por câncer. Eu estava no 4º ano de Medicina e fui testemunha de uma ausência de tratamento para sua doença. Comecei a me orientar na área da pesquisa com a mestre Professora Dinah Borges de Almeida. Depois, como médico nefrologista, perdi muitos pacientes com insuficiência renal pois, na época, diálise e transplante renal ainda não estavam avançados, causando pouca sobrevida. Assim, logo depois da residência, deixei o Brasil em 27 de junho de 1982, fazendo exatamente 40 anos, pela Varig, chegando no aeroporto de Orly, em Paris, com muita emoção.


Fui aceito no Hospital Necker, no serviço do Professor Jean Berger, que tinha descrito uma nova doença renal, a nefrite de Berger. Trabalhei com ele por 5 anos e defendi meu doutorado sobre novas descobertas desta doença. Meu plano era voltar ao Brasil depois do doutorado, mas a vida sempre reserva surpresas. Como me identifiquei como pesquisador, resolvi continuar meu caminho mas mudando de área e de pais. Fui fazer um pós-doutorado nos Estados Unidos, na área de Imunologia com um outro “papa” na área, o Professor Max Cooper.


Fiquei 4 anos em Birmingham, no Alabama, e como tinha bebido a água do rio Sena e havia me casado com uma francesa, acabei decidindo voltar à Paris para trabalhar na área de pesquisa médica. Passei no concurso do Institut National de La Santé Et de La Recherche Médicale - INSERM, em 1991. Trabalhei no Necker por 10 anos como chefe da equipe de pesquisa em imunonefrologia. Em 2002, fui convidado para ser professor de imunologia no Hospital Bichat, da Universidade de Paris, para fundar um centro de pesquisas na área de doenças inflamatórias.


Me casei em 1990, nos Estados Unidos, com Agnès Lehuen, pesquisadora francesa, nascida em Belfort, diretora de um laboratório de imunologia do diabetes, no hospital Cochin. Nos conhecemos em Paris e ela me acompanhou aos Estados Unidos. Uma esposa maravilhosa que me deu muito apoio aqui na França. Tivemos um filho, Antoine Renato Costa Monteiro, nascido em Paris, em 1996. Atualmente, é estudante de Farmácia, na Universide de Paris. Antoine tem nacionalidade brasileira com carteira de identidade mineira, claro, de Guaxupé. Ele fala nosso português, curte muito o Brasil e Guaxupé, onde sempre passamos o Natal e Ano Novo com tios e primos


Antoine Renato Costa Monteiro,

Moro em Paris e sou professor titular de imunologia da Universidade de Paris. Sou diretor de um centro de pesquisas do INSERM, com 300 pesquisadores, sobre doenças inflamatórias. Está localizado no campus do hospital Bichat, no norte de Paris, no bairro famoso de Montmartre.


Escolhi Paris e a França pois tinha um dos melhores centros do mundo na minha área profissional na época. O hospital Necker era um verdadeiro templo da Nefrologia mundial, onde nos anos 50 se fez o segundo transplante renal no mundo. Além disso, Paris sempre foi um sonho que queria realizar pelo modo de vida e cultura, sem contar a parte alimentar, descobrindo os 300 tipos de queijos e uma variedade exceptional de vinhos. Minha passagem pelos Estados Unidos, por quatro, anos também foi muito benéfica. Estive em um dos melhores centros de imunologia do mundo e lá aprendi muito com o Professor Cooper e seu assistente, Dr Kubagawa. Essa experiência foi muito importante, trazendo novos conhecimentos em doenças renais nas áreas de imunologia e inflamação também, conhecidas como nefrites. Fomos tão felizes por lá que me casei em Birmingham e a festa foi na casa do chefe. Até hoje somos muito amigos. Me considera, cientificamente, como um filho.


A pesquisa nesta área médica foi difícil durante muitos anos, com muita labuta e competição em nível internacional. Porém, com o tempo, ela me promoveu ao nível mundial, pois hoje, sou líder na área e responsável ‘convenor’ de um ‘network’ de médicos-pesquisadores que trabalham com nefrologia e a doença de Berger. Trata-se de uma das nefrites mais frequentes no mundo e uma das causas de insuficiência renal. Meu grupo descobriu novas moléculas e novos mecanismos imunológicos que hoje são alvos para novos tratamentos para a doença. Sou, atualmente, presidente da Sociedade Francesa de Imunologia.


No Brasil, faço parte de uma sociedade agropecuária, em Guaxupé, com meus irmãos, gerada com muito zelo pelo irmão mais novo, Marcos, agricultor de formação. Essa sociedade nos une muito e nos vemos com frequência, seja por internet ou quando vou ao Brasil, sempre relembrando dos tempos de criança com todo o belo legado dos nossos antepassados.


Meus pais foram excepcionais, tanto pela educação e amor que nos deram, como pelo exemplo de vida, sempre semeando humildade e amor por onde passaram. Meu pai foi um médico exemplar e muito amado pelos pacientes em Araçatuba, além de tocar violão e cantando, sobretudo, serestas inesquecíveis que ainda cantamos juntos com os irmãos. Minha mãe sempre nos apoiando e também excelente musica no piano. Eles nos deixaram esse amor pela musica e nos guiaram no nosso percurso. Mesmo longe no outro mundo eles continuam me guiando e é como se eles estivessem no Brasil, tenho essa sensação, talvez por morar em outro continente. Às vezes, penso em ligar como se eles ainda estivessem vivos me ouvindo. Eles me deixaram 3 irmãos e uma irmã, uma família maravilhosa com muitos sobrinhos. Uma dádiva de Deus pois somos muito unidos e, graças ao mundo moderno, estamos constantemente conectados, sempre um apoiando o outro em momentos difíceis. Essa união devemos aos nossos pais e avós.


Tenho uma mensagem à Guaxupé: que continue sendo uma cidade calorosa, com muito charme ilustrando a beleza das alterosas de Minas Gerais. A cidade cresceu mas continua sendo sempre muito acolhedora, com um povo maravilhoso, alegre e humano. Quando volto, sempre me sinto em casa e como se o tempo tivesse parado. Foi em Guaxupé que, junto com meus avós, tios e amigos, aprendi, talhando madeira ou explorando a terra, a ter criatividade e curiosidade - virtudes necessárias e tão úteis na vida de um pesquisador.



1 comentário


Que linda história Dr.Renato.

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