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MAESTRO LAÉRCIO DE FREITAS: DAS ASAS DO AVIÃO PARA AS ASAS DE UMA ORQUESTRA

Por Rosângela Felippe, jornalista



Muitas vezes, a infância torna-se um brinde à saudade quando nos deparamos com a idade adulta. Principalmente quando o destino nos permite conviver com pessoas cativantes. Contudo, Laércio de Freitas me cativou sem eu nunca tê-lo visto.


Os pais de Laércio (Ernesto e Helena), que residiam em Campinas, pelo menos uma vez ao ano visitavam a cidade de Guaxupé e se hospedavam na casa de minha madrinha Leontina (irmã de minha avó materna, Dona Guiomar). O pai de Laércio era primo delas.

O casal irradiava simpatia. Ernesto era dotado de fina educação, vestia-se com elegância, falava muito bem e demonstrava ser um homem inteligente e bem informado. Helena, por sua vez, uma senhora cheia de meiguice, gostava muito de crianças e me pegava no colo falando com imensa ternura.


Em meio às conversas durante as refeições com meus familiares maternos, escutava sempre comentários sobre Laércio. Todos me pareciam orgulhosos ao pronunciar o nome daquele que havia resolvido seguir carreira na FAB (Força Aérea Brasileira).


Com o passar do tempo, o nome de Laércio de Freitas continuou entrando em meus ouvidos com admiração, inclusive nas palavras de uma tia de minha avó (Dona Otávia) com quem Laércio morou em São Paulo para poder estudar. A velha senhora se emocionava ao contar que Laércio, a quem amava como um filho, além da Aeronáutica, estudava piano desde os cinco anos de idade. E, quando bem preparado como pianista, convidou-a para ouvi-lo tocar sugerindo que ela mesma escolhesse a música. Dona Otávia, então, pediu a ele que executasse “Tico-Tico no Fubá”. Assim ele o fez como um gesto de gratidão por tudo o que ela proporcionou a ele quando era um jovem estudante. Dona Otávia confessava a todos que aquele foi o dia mais feliz de sua vida, enquanto que em seus olhos verdes brotavam lágrimas de emoção que escorriam pela face magra e já cheia de rugas.


Cresci imaginando como seria Laércio de Freitas já que não surgiu oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Soube que se tornou um músico muito famoso, principalmente no exterior. Como jornalista, fiquei motivada a procurá-lo e entrevistá-lo. Até que, em conversa com uma parenta (Dona Rosa Maria), ela me disse que Laércio também era ator e que representou papéis nas novelas globais: “Mulheres Apaixonadas” e “Viver a Vida”. Sua filha, Thalma de Freitas, também seguiu a carreira artística como atriz e cantora. Ela desempenhou papéis nas novelas: “O Clone”, “Laços de Família”, “Kubanacan”, “Bang Bang” e “Começar de Novo”. Hoje, Thalma vive em Los Angeles onde vem se dedicando somente à música. Ela carrega o apelido de “filha do maestro”.


Comentando com o amigo Eucir de Souza sobre o meu intento em entrevistar Laércio, ele me revelou ser fã incondicional do músico e que tinha o contato da esposa dele, a produtora musical Piki de Freitas.


E a entrevista aconteceu de modo online. Mesmo assim, mantive o desejo de poder encontrá-lo pessoalmente. Porém, devido à pandemia, não foi possível. Mas ficou a promessa de eu ir visitá-lo quando a tempestade passar. Contudo, já pude ouvir sua voz serena, suas frases sábias e um jeito sossegado que lembra sua mãe Helena, a senhora carinhosa que o pegava no colo quando criança para ouvirem musicais no rádio, despertando no pequeno Laércio o gosto pela música. O mesmo colo que um dia me embalou deixando-me, com gratidão, uma doce lembrança da infância.


UM POUCO DE UMA GRANDE HISTÓRIA


Laércio de Freitas nasceu em Campinas (SP), em 20 de junho de 1941. É maestro, compositor, pianista, tecladista, arranjador e ator. Transmitindo muita serenidade, o músico é visto como um 'bom papo' a qualquer momento do dia, da noite ou da madrugada. A fonte de onde extrai o sentido das notas musicais é o mesmo de onde se apodera de frases sábias: No âmago de sua própria natureza.


Ainda jovem, ingressou-se na Aeronáutica. Com o tempo, passou a se interessar por livros sobre orquestras e regentes, principalmente os que falam a respeito dos músicos de sua preferência. Assim, foi se envolvendo cada vez mais com o mundo das orquestras filarmônicas. Todo este estudo resultou em um verdadeiro prodígio da música brasileira conhecido mundialmente como: Maestro Laércio de Freitas, também apelidado de 'Tio'.


Formado em 1957 pelo Conservatório Carlos Gomes, em Campinas, em 1966 já traçava uma brilhante carreira internacional apresentando-se na Europa, México e Ásia. Fez parte do Zimbo Trio, acompanhou a apresentação de vários artistas renomados como: Emílio Santiago, Maria Bethania, Wilson Simonal, Martinho da Villa, Clara Nunes, Ivan Lins, entre muitos outros.


Foi responsável por arranjos musicais de peças teatrais. Gravou um CD em homenagem a Jacob do Bandolim, Na TV participou de muitos musicais. No Cinema foi ganhador do 'Kikito de Ouro' (Prêmio do Festival de Gramado) pela trilha sonora do filme 'Amassa que Elas Gostam' (de Fernando Coster) e ator no filme 'Chibata', de Marcos Manhães Marins.

Em 2010, participou do projeto “Áudio no Visual – Uma Breve História do Som no Cinema”, executando a trilha sonora para o filme mudo “Braza Adormecida”. Como arranjador, o 'Tio' é tido como um dos mais aspirados pelos músicos brasileiros. Como exemplo, o pianista Arthur Moreira Lima se apresentou em vários shows e gravou um LP só com arranjos de Laércio de Freitas.


Seu trabalho está presente em alguns dos mais importantes discos da música brasileira e pode ser ouvido em álbuns essenciais como “Erasmo” de Erasmo Carlos, “Quem é Quem” de João Donato, “Mustang Cor de Sangue” de Marcos Valle, “Clara Nunes” (homônimo e conhecido como o disco das estrelas da Clara Nunes), “Elza Soares” (álbum homônimo de 1973) e “Contraste” de Jards Macalé. Trabalhou também nos grupos dos maestros Radamés Gnatalli, Severino Araújo e fez parte do Tamba 4 substituindo Luis Eça no 3º disco do grupo. Durante sua trajetória artística, Laércio vem se dedicando mais notadamente a orquestrações e regências.


SOB SEU OLHAR, AINDA HÁ MUITAS ADVERSIDADES IMPEDINDO A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA DE OCUPAR O SEU DEVIDO LUGAR, MESMO COM TODA GRANDEZA INCORPORADA?

Eu não sei dizer se é adversidade ou desinteresse da mídia. Música brasileira existe em todos os lugares e de todas as qualidades. Acho que falta mesmo é interesse por parte de 'os ditos' críticos de música que precisam prestar um pouco mais atenção de que há muitas coisas, muitas orquestras formadas por jovens interessados em música brasileira. Eu não sei por qual razão eles não dão força a esses fatos. Se os jovens se interessam, porque eles não prestam mais atenção nisso?


SUA CARREIRA INTERNACIONAL É INTENSA. DE QUE MANEIRA A SUA LINGUAGEM MUSICAL É COMPREENDIDA NO JAPÃO, ONDE TEM SIDO MAIS ENALTECIDA?

Sim, o país onde minha música é compreendida é o Japão. É lá que as coisas interessantes do meu trabalho, além de as compreenderem, as pessoas as executam e prestam atenção nelas. No Japão, os jovens estudam e tocam o que eu faço. Sim, é no Japão onde existe um interesse maior por minha música.


O TECLADO TRADUZ GRANDEMENTE SEU TALENTO MUSICAL. MAS É SOBRE AS TECLAS QUE REALMENTE NASCEM SUAS COMPOSIÇÕES OU É NAQUELE MOMENTO INESPERADO, ESTEJA ONDE ESTIVER, QUE DIMANAM SUAS MÚSICAS?

Em se tratando de composição, considero que a intuição é importantíssima. Não se deve fazer pouco dela. Quando se está compondo, a intuição nos oferece um leque de possibilidades e cabe a nós saber qual é a possibilidade mais interessante naquele momento.


VOCÊ COMEÇOU A ESTUDAR PIANO EM UMA ÉPOCA EM QUE OBRAS CLÁSSICAS ERAM IMPRESCINDÍVEIS AO APRENDIZADO DO ALUNO. ASSIM, COMO ARRANJADOR MUSICAL, ALGUNS LAMPEJOS CLÁSSICOS SE EXPRESSAM EM SUAS EXECUÇÕES?

Eu ouvia muitas músicas eruditas no rádio e isso me influenciou bastante. Ouvia orquestras internacionais e muitas músicas brasileiras. Isso tudo está incluído em meu aprendizado. É claro que tem influências de muitos compositores e orquestras que ouvia e transcrevia tocando.


MAESTRO É UM TÍTULO QUE REVESTE TODA SUA VERSATILIDADE MUSICAL. MAS COMO SURGIU O APELIDO ‘TIO’?

'Tio' é o apelido que recebi de um amigo de Campinas que foi corneteiro do exército. De um momento para o outro, ele começou a me chamar de 'Tio' e eu nunca reclamei e o chamava pelo mesmo apelido também.


COMO ATOR DE CINEMA E TV, A VEIA QUE TRANSPORTA ESSE TALENTO TAMBÉM É FORTE. O QUE CONFIGURA EM SUA VIDA A ARTE DE REPRESENTAR?

É claro que faz parte de mim representar e, muito mais ainda, interpretar personagens. Afinal das contas, o cinema, a televisão, ou seja onde for que se tenha que dizer um texto, é preciso ter a certeza de poder interpretar o personagem deste texto, tal como transcrever e tocar músicas de outros compositores.


VOCÊ SEMPRE FOI CONSIDERADO UM DOS ARRANJADORES FAVORITOS DOS CANTORES E CANTORAS BRASILEIRAS FAMOSOS. DA SUA PARTE, HÁ AQUELES INTÉRPRETES QUE VOCÊ TAMBÉM TEM PREFERÊNCIA EM ACOMPANHAR COM SEU PIANO?

Minha conexão com grandes intérpretes brasileiros sempre foi direta. Os cantores e cantoras os quais pude acompanhar e com os quais pude gravar todos me contentaram pela qualidade de suas interpretações. Foram muitos esses profissionais competentes e não vou mencionar nomes para não trair ninguém, mas tem muita gente boa com quem trabalhei. Gosto muito do trabalho deles e, até hoje, ouço esses cantores e cantoras da década de 70 e nunca vou deixar de gostar, pois, nunca irão sair da minha alma.




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