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Globalização da Polenghi Guaxupé, com exportação e funcionários estrangeiros

Por Sílvio Reis, jornalista



O antigo prédio da fábrica da Polenghi em Guaxupé foi demolido para a construção de um novo empreendimento comercial. O projeto total da área, que inclui preservação histórica de uma fachada interna, ainda não foi divulgado. Enquanto moradores esperam por novidades, fontes de trabalho e de lazer, a Revista Mídia resgatou fatos históricos e fotos inéditas da multinacional francesa que atuou por algumas décadas na cidade.

Muito leite na terra do café


Em Guaxupé, a Polenghi começou como produtora de manteiga no atual prédio da Laticínios President. A expansão para a fábrica, na Av. Conde Ribeiro do Valle, deu início à produção de queijos em escala industrial e padrão europeu.

O guaxupeano Camilo Alves Madeira trabalhou nos dois endereços da empresa. Uma das suas funções era transportar embalagens de creme de leite que vinham de Itamogi. De carroça, ele buscava os produtos na estação da Mogiana.


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Com o tempo, quatro filhos de Camilo - Antônio, José, Mário e Orlando – também se tornaram funcionários. Aos 83 anos, com boa memória e muita história para contar, Mário Alves Madeira se recorda dos quase 30 anos de atuação na Polenghi, de 1953 a 1984. Nesse período, ele saiu e retornou à empresa.

Mário começou tirando gelo das máquinas. Depois passou a despejar leite nos tanques. Logo aprendeu a fazer a massa do queijo. Em seguida, fabricava massa para a seção de filagem de muçarelas e provolones de 80 kg. Foi promovido a chefe de setor. Ficou nessa função até se aposentar, em 1984, mas ainda ganhou um novo registro na carteira de trabalho.


Na Polenghi, conheceu a funcionária Maria Ignez Giacon, do setor de embalagens de queijos. Casaram-se em 1960. Tiveram como padrinhos a francesa Mafalda, casada com o italiano Jassinto Finetti, que se mudou para o Brasil para ensinar funcionários da filial mineira a produzir queijo com padrão industrial de qualidade. Após o casamento, Ignez se se tornou dona de casa, mas passou a produzir cordões para embalagem dos queijos.

Mesmo depois que a esposa retornou à Europa, Finetti continuou em Guaxupé, onde fez muitos amigos e foi padrinho da filha Cristina, de Ignez e Mário. Ele não foi o único estrangeiro na filial Guaxupé. O francês Daniel e o suíço Jean respondiam pela produção de queijo suíço de 60 kg, vendido principalmente em São Paulo. Mas o principal produto de exportação para a Argentina era o provolone de diferentes pesos, incluindo o de 200 kg.

Depois de longos anos na liderança regional e um quadro de quase cem funcionários, a concorrência contribuiu para o fechamento da filial Guaxupé. Mário conta que a Nestlé e a Mococa pagavam mais pelo litro de leite do que a Polenghi. Como consequência, houve diminuição do leite para a produção de queijos e encarecimento nos produtos.

Os funcionários ficaram muito tristes com o encerramento da fábrica em Guaxupé, mas todos receberam direitos trabalhistas, informa Mário Madeira. Cerca de 15 funcionários locais foram transferidos para a filial goiana de Goiatuba. Mário foi convidado para ensinar novatos a produzirem queijo com o padrão Polenghi. A cada quinze dias, ele viajava de Goiás a Guaxupé, para visitar a família. Recebeu proposta de trabalho da filial goiana, mas optou por retornar à terra natal.

Profissionais de fora



Uma multinacional como a Polenghi pesquisa e contratava grandes profissionais do mercado. Pela experiência na produção de laticínios, José Giacon recebeu proposta de um dos diretores da empresa, sr. Piciani, para trabalhar em Guaxupé. Na época, ele morava em São José do Rio Pardo e já tinha atuado, nesse ofício, em São Sebastião da Grama e Itobi.

O convite foi aceito. Primeiramente, veio sozinho, em 1954. Depois de quatro meses, trouxe a família para morar em Guaxupé. Com exceção da matriarca Maria Abdalla Giacon, os quatro filhos do casal trabalharam na empresa: João, Rose, Maria Ignez e José.

Segundo Rose Maria Giacon do Valle, que se tornou conhecida como Rosa do Valle, o diferencial da Polenghi naquele tempo era o registro em carteira e o apoio aos funcionários, como pagamento de aluguel, fornecimento diário de três litros de leite a cada funcionário, cesta de produtos e outros atrativos.

João e José ficaram na produção e dividiram trabalho com homens e mulheres. Inez foi para o setor de embalagens.


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Rosa se identificou com os afazeres de escritório, onde controlava o recebimento de leite. “Meu serviço no escritório estava ligado aos fornecedores de leite locais e da região (Guaranésia, Jacuí, São Pedro da União, Bom Jesus da Penha, Muzambinho, Juruaia e outros municípios próximos). Lembro que o leite era fornecido em latões de 50 litros, carregado e descarregado manualmente.”

Quando o serviço aumentava na produção, Rosa ajudava no empacotamento de produtos. Ela também exerceu uma terceira função. Tornou-se uma representante publicitária da empresa na feira anual agropecuária de Guaxupé, onde a empresa tinha um stand.


O contato com aproximadamente duzentos fornecedores de leite possibilitou conhecer o futuro marido, José Carlos Magalhães do Valle, que entregava diariamente leite de propriedades da família. O contato na conferência do leite e alguns amigos em comum resultou em casamento. Em 1970, ela deixou a Polenghi para trabalhar com a nova família. Acompanhou a concorrência no mercado de leite nas décadas de 1970 e 80, que culminou no fechamento da fábrica. “Um legítimo prejuízo para Guaxupé e região”, avalia. Os seus dois irmãos saíram da empresa, mas continuaram no setor de laticínio. Até maio de 2020, antes de aposentar, João Giacon trabalhava como gerente de produção em uma fábrica de São Sebastião da Grama. José Adilson foi funcionário de um laticínio em Casa Branca. Pessoalmente, a Polenghi teve um papel fundamental na vida de Rosa, onde aprendeu um ofício que deu sustento à família por vários anos. Criou raízes em Guaxupé e formou uma nova família na cidade. Ela fala em nome da família: “Era um oficio bonito e delicado, o que nos orgulha muito de ternos nos fortalecidos nele.”


Alagamentos e poluição

O casal Farid e Nídia Chueri, com os filhos Maurício e Maria Amélia, moraram próximos da Polenghi entre 1973 e 78. Nesse pouco tempo, há muita história para contar e analisar.

Na avaliação da advogada Maria Amélia Chueiri, a multinacional francesa foi construída em local inadequado: acima e ao lado do Rio Guaxupé. Chuvas fortes causavam o rompimento de barreira no açude do Country Club, deixando a empresa e as imediações alagadas. No fim dos anos 70, Maria Amélia viu o empresário Antônio Abrão (o Jorjão da Loja Nova) utilizando um tipo de canoa para resgatar funcionários isolados da Polenghi.

Enchentes atingiam grande parte da atual Av. Conde Ribeiro do Valle, até a área em que começava a elevação, na Rua Capitão Erasmo de Barros. Era comum a correnteza levar queijos que não conseguiam ser guardados pelos funcionários, diante de inundações muito rápidas.

Mário Madeira se recorda de uma tromba d´água que atingiu dois metros de altura na fábrica. Os funcionários estavam trabalhando e saíram às pressas ao observarem uma enchente que se aproximava. Vinha da fazenda Nova Floresta. O prejuízo foi tão grande que a fábrica ficou parada por um bom tempo, para consertar maquinários, na Pásqua Comercial, e fazer a limpeza local. A água da chuva entrou no reservatório de óleo e causou um grande vazamento poluente.


Na época, o centro da cidade se encerrava na Praça do Rosário. Mesmo assim, a loja de queijos, na própria indústria, atraía clientes. O prolongamento da Avenida se deu no mandato do prefeito Walmor Russo (1973-1976), quando o vice-prefeito Joaquim Cecílio Ribeiro (Joaquim das Linhas) assumiu a administração por um curto período. Anteriormente, a Polenghi estava numa área basicamente rural. Assim que conquistou endereço urbano, tornou-se inviável uma indústria extremamente poluente no centro da cidade. Maria Amélia se recorda que a abertura das caldeiras causava grande mau cheiro e sujava de fuligem as residências próximas, além de poluir o rio. Com o tempo, surgiram indenizações diversas. Não havia mais vantagem para a multinacional se manter em Guaxupé. O fechamento aconteceu nos anos 1980.

Ainda segundo a advogada, um conjunto de fatores levou o fechamento da filial Guaxupé. A concorrência de grandes e pequenos laticínios fez a multinacional perder mercado. Depois de 1970, os produtos da marca já não tinham a mesma saída, em comparação à potência empresarial de décadas anteriores. Batismos no rio limpo


De 1950 a 1954, o casal Geraldino e Concheta Carloni da Silva, com quatro filhos, foram moradores bem próximos da Polenghi. Os irmãos Aster e Anésio trabalhavam na fábrica e almoçavam em casa. As irmãs Ercília e Maria Aparecida levavam lanche para os irmãos e muitas vezes tomavam café na empresa, junto com os funcionários. Os portões da fábrica ficavam abertos nessa época.

Ercília conta histórias bem diferenciadas da Polenghi nesse período de quatro anos. Duas grandes chuvas e enchentes ocorreram, sem causar alagamento na fábrica.

A filial Guaxupé contratou o químico alemão Hansen, que fugiu da Segunda Guerra Mundial. Veio para o Brasil com a esposa e dois filhos. Ercília Silva Souza se lembra de histórias contadas pelos vizinhos alemães. Tiveram uma empresa de laticínios, eram ricos e enterraram joias antes de deixarem a Europa. Hansen ficou pouco tempo na Polenghi de Guaxupé.

Nessa época, a pequena produção de produtos de queijos, com poucos maquinários, não poluía a água e o ar. Parte do rio que passava ao lado da empresa tinha águas limpas. Foi o local escolhido pela Congregação Cristã no Brasil, que tinha igreja no Taboão, para realizar batizados de fiéis, sob coordenação do casal Celina e Luís Fávero. Essa mesma parte do rio era usada para lavar carros.

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