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Um médico na linha de frente para salvar vidas no enfretamento ao novo Coronavírus

MÉDICO REVELA: “NUNCA TIVEMOS TANTOS PACIENTES GRAVES AO MESMO TEMPO. VEJO, DIARIAMENTE, MÉDICOS E ENFERMEIROS CHORANDO NOS HOSPITAIS DE NERVOSO, RAIVA E DESESPERO. MAS ISSO É BOM. É SINAL DE QUE AINDA TÊM EMPATIA, SENTEM A DOR DO OUTRO. MEU MEDO É QUANDO NINGUÉM MAIS CHORAR”

Por Rosângela Felippe, jornalista


Natural de Mogi das Cruzes (SP), o cirurgião e emergencista, Dr. Adriano Vendimiatti Cardoso, é casado com a guaxupeana Carina Ribeiro do Valle Pereira Vendriamiatti com quem tem um casal de filhos: Miguel e Isabella.

Neste entrevista, o médico fala sobre sua rotina como profissional na linha de frente no combate ao Covid-19 e a luta que trava nos hospitais para salvar vidas. Luta essa que, muitas vezes, atinge 24 horas seguidas em meio a uma pandemia persistente e ávida em destruir sonhos.


Em uma incessante roda viva, Dr. Adriano atende pacientes em três hospitais: Hospital Mario Gatti (Campinas), Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Indaiatuba) e Hospital São Camilo (Itú).


Vivendo uma experiência até então desconhecida pela própria Ciência, ele tem se mantido entre o dever e o medo, pois, o vírus paira ao lado dos profissionais da saúde como uma ameaça sarcástica, ácida e destemida contra suas vidas.


Foi convidado a dar depoimentos à Revista Mídia como uma revelação puramente genuína da realidade que estamos vivendo. Ninguém, mais do que o soldado escalado para a guerra, é capaz de descrever o suplício gerado por uma pungente batalha.

E assim, em meio aos desafios diários, prevalece a sua dedicação à vida humana.


HÁ MUITO, A MEDICINA É REFERIDA MUITO MAIS COMO MISSÃO DO QUE COMO PROFISSÃO. QUAL O SEU PARECER QUANTO A ESTE CONCEITO?

É uma profissão. Como todas as outras, você estuda, aprende o ofício, trabalha e por isso recebe um salário. Simples. Missão é quando algo bom, algo essencial, torna-se uma paixão. Salvar vidas é uma missão. Cuidar de pessoas também, assim como ensinar, divertir e protegê-las. Mas salvar vidas não é exclusividade dos médicos. Enfermeiros e bombeiros também fazem isso. Tampouco é universal, pois, tem muitos que não se importam com as pessoas que cuidam. Por isso, para mim, medicina é profissão. Dedicar sua vida a salvar outras é missão.


O DOM DE SALVAR VIDAS EXIGE ARROJO, UMA VEZ QUE, NO EXERCÍCIO DE SALVÁ-LAS, TAMBÉM SE PODE VÊ-LAS PERDIDAS. COMO VOCÊ CONVIVE COM ESSA REALIDADE?

É uma lição de humildade que vem bem cedo na profissão: não somos deuses. Pessoas vão morrer e muitas vezes o que podemos fazer por elas não tem nada a ver com estender apenas seu tempo de vida. Nessas horas, me apoio nas palavras do maravilhoso Patch Adams: “se você tratar doenças, você perde ou ganha. Agora, se você tratar pessoas, você vai ganhar sempre, não importa o que aconteça”.


EM MEIO AOS POUCOS RECURSOS DA MAIORIA DOS HOSPITAIS E DAS IDEIAS DESORDENADAS ENTRE POLÍTICOS COM RELAÇÃO À SAÚDE PÚBLICA, COMO OS MÉDICOS VÊM DRIBLANDO ESTE TURBILHÃO?

Não vêm. Somos engolidos por ele pois a estratégia do governo é jogar a população contra nós, como se fôssemos nós os responsáveis por tudo de errado. Lógico, colegas inescrupulosos ou incompetentes reforçam isso. Mas, quem é culpado pelo desmantelamento do SUS não quer médicos e população unidos contra eles.


O MUNDO VIVE UM DOS MOMENTOS MAIS EXTENUANTES COM RELAÇÃO À SAÚDE DEVIDO À PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS. COMO MÉDICO ATUANTE NA LINHA DE FRENTE, FALE SOBRE SUA ROTINA.

Trabalho, casa, trabalho. Eu já ficava a semana toda nos hospitais e isso não mudou. Agora, lá dentro, tivemos que incorporar várias rotinas que não eram do nosso dia a dia como paramentar-se para entrar nas salas com pacientes infectados. Mas o serviço é basicamente o mesmo: examinar o paciente, falar com ele, fazer os procedimentos e prescrever. O que mudou foi a quantidade de serviço e o medo!





VOCÊ TEM ESPOSA E FILHOS PEQUENOS. APÓS O EXPEDIENTE SUA VOLTA À CASA LHE EXIGE MUITOS CUIDADOS PARA NÃO CONTAMINÁ-LOS. QUAIS AS ESTRATÉGIAS ADOTADAS PARA ASSEGURAR QUE ELES FIQUEM, DE FATO, PROTEGIDOS?

Nossa, já tive discussões homéricas com minha esposa sobre isso porque nenhuma dessas estratégias vai funcionar. Eu chego em casa, tiro o sapato na porta, limpo-os com hipoclorito, entro, não deixo ninguém encostar em mim, tiro toda a roupa, ponho para lavar e vou para o banho. Minha bolsa e pertences ficam todos trancados. Mas não importa: quando eu pegar a Covid vou estar transmitindo o vírus por até 5 dias antes de ter o primeiro sintoma. A única maneira de evitar de verdade que eles se contaminem é tirando-os de casa ou eu saindo. Mas minha esposa não quer me deixar sozinho nesse momento.


EM SUA EQUIPE MÉDICA, VÁRIOS SE INFECTARAM PELO VÍRUS SENDO QUE, ALGUNS FORAM A ÓBITO. VER UM COLEGA PERDER A VIDA LHE CAUSA, ALÉM DE TRISTEZA, ALGUMA FRUSTRAÇÃO POR NÃO TER SIDO POSSÍVEL SALVAR-LHE A VIDA?

A sensação não é de frustração, é impotência e medo. Quando morre alguém “do seu lado” a sensação de que você pode ser o próximo fica maior.


O NOVO CORONAVÍRUS ESCONDE-SE ATRÁS DE SUA FORMA MICROCÓSPICA. COM ISSO, TEM OCORRIDO DE MUITOS NÃO ACREDITAREM NO SEU PODER DE DISSEMINAÇÃO E ATAQUE. HÁ ATÉ QUEM NÃO ACREDITE EM SUA EXISTÊNCIA. ESSA DESCRENÇA TEM CONTRIBUÍDO PARA QUE OS MÉDICOS TRABALHEM DE MODO MAIS SOBRECARREGADO PELA VIDA DAS PESSOAS? OU SEJA, UMA TOMADA MAIOR DE CONSCIÊNCIA AJUDARIA NO COMBATE À AÇÃO E À PERMANÊNCIA DO VÍRUS?

Com certeza! Quanto mais pacientes, mais pacientes. É geométrica a progressão. O trabalho e o esforço nosso também. Estima-se que a cada 20 brasileiros infectados, apenas um é testado. Especialistas apontam que no Brasil ja temos mais de 3 milhões de infectados pela Covid. Provavelmente, metade disso vem da incapacidade das pessoas de acreditarem no problema. Se as pessoas estivessem fazendo a quarentena como deveriam, talvez Manaus não tivesse colapsado ou até poderíamos estar discutindo abrir o país.


POR ESTAR AINDA CERCADO DE MISTÉRIOS, O NOVO CORONAVÍRUS, MUITAS VEZES, LUDIBRIA A PRÓPRIA MEDICINA. COMO É ESTAR DIANTE DE UMA AMEAÇA DESCONHECIDA, IMPERCEPTÍVEL E COM CARACTERÍSTICAS TÃO COMPLEXAS? HÁ MOMENTOS EM QUE MANIFESTA O IMPULSO DE SE ESQUIVAR TEMENDO PELA PRÓPRIA VIDA?

Muitas vezes. Mais pela minha família. Isolar-me numa chácara ou casa de praia com comida para seis meses e uma pilha de livros. Mas não tem como, não agora. Quem sabe quando eu me infectar?


VOCÊ, MESMO ESTANDO ENFRENTANDO O PERIGO DE FRENTE, CONDUZ A VIDA DE MODO CORDIAL E ALEGRE. É SUA MANEIRA DE SE BLINDAR CONTRA O MEDO E AMENIZAR O STRESS, OU É PARTE DO SEU TEMPERAMENTO MESMO?

É parte do meu DNA. Meu apelido é doutor derrame (meu nome é Adriano Vendimiatti Cardoso, ou seja, Dr. AVC - a sigla para derrame) por que eu rio até daquilo que não parece risível. Mas não por falta de sensibilidade ou moral e sei muito bem quando não fazer uma piada. Mas acho que vim ao mundo para fazer as pessoas rirem quando achavam impossível.


QUANTAS HORAS AO DIA VOCÊ TEM SE MANTIDO NOS HOSPITAIS?

Cerca de 12 a 24 horas. Trabalho, em média, 96 horas por semana.

O QUE MAIS LHE TEM SIDO EXIGIDO EM TERMOS DE FORÇA E CORAGEM PARA ENFRENTAR A DOENÇA E SALVAR A VIDA DE SEUS PACIENTES?

A impotência perante aos casos graves. É horrível como a doença piora em velocidades vertiginosas e fica fácil desistir de um caso “terminal”. Mas precisamos lembrar que aquilo não é um câncer e sim um vírus. Se mantermos ele vivo mais um dia, pode ser que amanhã ele melhore.



Dr. Adriano e a esposa Carina Ribeiro do Valle Pereira Vendriamiatti


COMO DESCREVER O QUADRO GERAL DE MUITOS HOSPITAIS BRASILEIROS DIANTE DO GRANDE NÚMERO DE INFECTADOS, FALTA DE PROFISSIONAIS E DE RESPIRADORES?

Cada hospital tem suas cruzes para carregar. Mas em cada um falta alguma coisa já, seja profissionais ou insumos. Vejo, diariamente, colegas médicos e enfermeiros chorando de nervoso, raiva ou desespero. Nunca tivemos tantos pacientes graves juntos ao mesmo tempo. Mas isso é bom. É sinal de que ainda tem empatia, sentem a dor do outro. Meu medo é quando ninguém mais chorar.


UM CONSELHO AOS LEITORES DA REVISTA MÍDIA QUANTO ÀS PRECAUÇÕES QUE DEVEM TOMAR ENQUANTO PERDURAR A PANDEMIA?

Isolamento social. Quem passa a Covid não sabe que está passando e, geralmente, não está sentindo nada. Por isso, aquele amigo que vocês quiseram ir ver, aquele garçom do bar que está abrindo às escondidas, o cara atrás de vocês na fila do supermercado, podem ser quem irão passar o vírus para vocês. Fiquem a três metros das pessoas e usem máscaras sempre. E sejam solidários: eu sempre carrego uma máscara extra para doar. A máscara no rosto do outro te protege mais do que no seu próprio.


QUANDO TUDO PASSAR, QUAL A MAIOR LIÇÃO DE VIDA QUE VOCÊ ACREDITA TER APRENDIDO COM TODA ESSA EXPERIÊNCIA COM O COVID-19 E SUA AÇÃO CONTRA A SAÚDE E A VIDA DE TANTOS SERES HUMANOS?

Não tome nada por garantido. Sei que dinheiro é virtual, sua liberdade é condicionada, seu poder é cedido, seu estatus é ilusório, sua vida está com os dias contados. Nunca mais viva como se não fosse morrer - porque você vai - e nunca mais assuma que o mundo vai ser sempre igual porque ele nunca é.


AOS QUE SUPERARAM A DOENÇA, QUAL A MENSAGEM QUE VOCÊ LHES DEDICA?

Suas batalhas pessoais já se foram e vocês venceram! Não deixem ninguém tirar isso de vocês ou diminuírem isso, pois, não é pouca coisa. Falta a batalha coletiva e essa é a mais difícil. Vocês agora são nossos heróis e nossos exemplos. Morremos de inveja de vocês! Agora, precisamos que nos ajudem!


AOS QUE ACREDITAM MAIS EM CONJECTURAS DO QUE NOS ESTUDOS DA CIÊNCIA, QUAL O SEU RECADO?

Sempre desconfie de quem ganha algo quando você concorda com ele, mesmo que seja um voto. Eu dedico tempo que poderia passar com a minha família discutindo e orientando as pessoas pelas redes sociais, e vou ganhar zero reais com isso (pelo contrário, vou fazer uma série de vídeos e vou pagar por isso). Tudo isso por que eu não gosto de ver gente morrendo. Por último, lembre-se: a ciência não depende do que você ou ninguém acredita. A gravidade não é um ponto de vista. Não adianta só negá-la e se jogar pela janela.


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