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SANTA CASA DE GUAXUPÉ
: COMO CAMINHA O HOSPITAL?

Advogado Especialista em Gestão Pública, atualmente Dr. Rafael Augusto Olinto exerce a gestão administrativa da Santa Casa de Guaxupé, instituição privada e filantrópica instituída em 1908, antes mesmo de a instituição do próprio município, em 1912.

Por Rosângela Felippe, jornalista


Hospital de média complexidade, atualmente a Santa Casa faz parte da Rede SUS estabelecendo referências a outros municípios de baixa complexidade, microrregião formada pelas cidades de Arceburgo, Cabo Verde, Guaranésia, Guaxupé, Juruaia, Monte Belo, Muzambinho e São Pedro da União, todas localizadas no sudoeste de Minas Gerais. Quando imprescindível, o estabelecimento faz a transição também para os níveis de alta complexidade como Varginha, Passos, Alfenas, Lavras, entre outros hospitais maiores. Portanto, a Santa Casa faz parte de uma rede como um todo dependendo necessariamente da mesma para realizar um atendimento integral segundo determinações do Sistema Único de Saúde.


Dr. Rafael Augusto Olinto

Importante ressaltar que, o hospital de Guaxupé conta com um Pronto Socorro que atua sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal que o terceriza para a Santa Casa. Assim, em um cenário que, segundo declara Dr. Rafael, apresenta deficiência de assistência ambulatorial na Unidade de Saúde por falta de médicos ou escassez de outros profissionais da área, o atendimento acaba desaguando, em sua maioria, no Pronto Socorro da Santa Casa chegando a ultrapassar a marca de cinco mil atendimentos ao mês.


Em algumas ocasiões, o estabelecimento que ocupa uma substancial posição de patrimônio histórico da cidade, tem sido palco de polêmicas depreciativas, bem como de críticas favoráveis à administração. Portanto, sendo a Santa Casa o recurso único de saúde para muitas famílias guaxupeanas que dependem de seus atendimentos gratuitos, a coluna abriu espaço à superintendência do hospital para que a população descubra outros elementos para aferir os fatos e caracterizar seus próprios conceitos.

Atualmente, quais as maiores dificuldades enfrentadas pela direção administrativa da Santa Casa?


Hoje, a maior dificuldade da Santa Casa é a de alcançar o equilíbrio econômico-financeiro da instituição. Para ser uma ideia, as despesas mensais superam as receitas em quantia próxima de R$ 300 mil. Desde que cheguei à Administração do Hospital, em 28 de setembro de 2022, notei uma carência de pessoal nas áreas meio, sobretudo no Financeiro e Planejamento, o que de certa forma levou a Santa Casa a assumir despesas e responsabilidades maiores do que sua capacidade instalada.


O fator Pandemia, certamente, fez com que a equipe já reduzida fosse ainda mais pressionada a manter e implantar serviços assistenciais que, cada vez mais fiscalizados, extrapolassem a estrutura disponível. Foi observado na minha chegada que, em meados de 2022, houve o aumento de 18% do quadro de funcionários, passando de cerca de 340 para 400 colaboradores, aumentando a folha de um patamar de R$ 670 mil para R$ 1 milhão mensais.


A justificativa encontrada foi a já referida escassez de pessoal e aumento significativo da demanda. Recursos financeiros aportados na época da Pandemia cessaram em 2022. Todavia, a assistência continuou a mesma fazendo com que, a partir do segundo semestre, as reservas financeiras fossem consumidas. O aumento absurdo de materiais e medicamentos fez com que as despesas aumentassem disparatadamente.


Hoje, a receita SUS representa mais de 80% e ações de aproximação com as autoridades públicas têm sido uma constante desde que cheguei. Oficiamos vereadores, prefeito, deputados, Conselho Municipal de Saúde e a todos mais para que tivessem ciência da dificuldade enfrentada por esta centenária instituição e que atende Guaxupé e mais oito cidades da microrregião. Ações estratégicas de diminuição de despesas e aumento de receitas têm sido uma constante diária.


Administrar um hospital de caráter filantrópico lhe assegura possibilidades de modernizar o estabelecimento? 


Contratualizada pelo SUS, a filantropia é responsável pela maior parte do atendimento hospitalar do Brasil. A lógica é perversa no sentido de que todo contrato com o poder público em matéria de serviço de saúde nasce desequilibrado, ou seja, a conta não fecha desde a sua implementação. A margem de negociação das Santas Casas é muito limitada frente aos programas e recursos financeiros ofertados pelo Poder Público.


Recursos tidos como ‘extraordinários’ por meio de emendas parlamentares e outras, servem para reduzir este desequilíbrio, o que não é de conhecimento do senso comum, levando à equivocada conclusão de que esses recursos são acréscimos, quando na verdade não são.

A modernização é pauta da minha gestão no tocante ao uso cada vez mais constante das tecnologias disponíveis, treinamento de pessoal e implantação de serviços estratégicos, como o Serviço de Qualidade Hospitalar, o Serviço de Gestão de Leitos, o Serviço de Auditoria Hospitalar, o Serviço de Compliance Contratual, o Serviço de Educação Continuada e o Serviço de Comunicação Social. Estes serviços foram implementados na Santa Casa a partir do segundo semestre de 2022 sob minha gestão de forma racional e responsável com o recurso financeiro. O mecanismo já vem trazendo resultados positivos de gestão e, consequentemente, à população.


A Santa Casa de Guaxupé, há muito vem enfrentando carência de médicos em diversas áreas, falta de leitos e outros recursos necessários ao bom atendimento aos doentes. O hospital chegou ao seu limite de crescimento ou falta uma reestruturação que viabilize condições melhores de trabalho dos profissionais?

O Hospital necessita, sim, de mais profissionais disponíveis e mais leitos. É importante dizer que a reestruturação vem sendo feita paulatinamente e de acordo com a capacidade do hospital. Infelizmente, com a estratégia de reequilíbrio econômico-financeiro da entidade, estamos passando por demissões de modo que a Folha de Pagamento chegue num patamar sustentável sob pena da sobrevivência da instituição. Isso faz com que projetos de aumento de leitos e de especialidades sejam fixados num segundo plano frente ao reequilíbrio econômico-financeiro. Mas isso ocorre de forma concomitante. Para conhecimento, a Santa Casa está em processo de habilitação da linha de cuidado do AVC, ou UAVC (Unidade de atendimento a Acidente Vascular Cerebral) junto ao Governo do Estado e Ministério da Saúde. Esta iniciativa visa credenciar o hospital na rede SUS de modo a receber recursos financeiros para um serviço que de certa forma já vem sendo prestado na Santa Casa através do serviço de Neurologia. O prédio centenário da Santa Casa passa por constantes manutenções e consome os recursos escassos.


As opiniões da população guaxupeana quanto à qualidade do atendimento aos pacientes são categoricamente divergentes. Muitos defendem a atuação dos médicos e atendentes em geral, enquanto outros criticam ou se ressentem pala forma como muitos profissionais os tratam. Essa variação de opiniões, sobretudo quanto aos servidores das enfermarias, a que se pode atribuir?


É difícil de se ter um dado técnico a partir de opiniões. O que a Santa Casa implantou desde o mês passado é o Serviço de Ouvidoria que visa à coleta de informações para que sejam tratadas e auxiliem na tomada de decisão para a melhoria constante da assistência. A Santa Casa, assim como qualquer empresa, é formada por pessoas. E pessoas variam seu comportamento conforme o ambiente interno e externo. Como política de Gestão de Pessoas também estamos implantando o projeto Integração que objetiva que o funcionário tenha plena consciência de suas atribuições e responsabilidade à frente da Santa Casa, desde conceitos técnicos até a necessidade do atendimento cada vez mais humanizado. Além da Ouvidoria, estamos iniciando o serviço de acolhimento aos atendidos através de enfermeira que, especialmente designada, se posiciona tanto na porta do Pronto Socorro quanto à beira leito de modo a colher e solucionar queixas de pacientes e familiares na ponta da linha.


Haveria necessidade de que houvesse um bom treinamento antes de se contratar funcionários em hospitais? Um preparo de caráter psicológico não ajudaria com que profissionais menos tolerantes adquirissem o hábito de tratar o paciente e sua família em um estilo mais cordial?



Com certeza, o treinamento é parte fundamental para admissão e seguimento do bom profissional na carreira dentro da instituição. O Projeto Integração somado a parceria que estamos iniciando com o curso de Psicologia do UNIFEG visa, também, preparar a saúde mental dos colaboradores para que estejam melhor preparados no atendimento aos doentes e familiares que, na imensa maioria das vezes, chegam fragilizados ao hospital.


O paciente quando é internado, seu emocional tende a ficar abalado. Nem todos os enfermeiros e enfermeiras compreendem a situação e, pelo excesso de trabalho, acabam tratando os doentes de modo aparentemente frio e indiferente. Haveria um meio de conscientizar esses trabalhadores de que olhar nos olhos do doente, dar um sorriso e lhe transmitir tranquilidade o ajudaria em sua recuperação e bem estar no ambiente hospitalar? Afinal, para sorrir não precisa de tempo, porque sempre é tempo de sorrir para alguém.
O atendimento humanizado é uma das metas do planejamento estratégico em curso. É importante salientar que este projeto deve ter constância, ou seja, treinamentos periódicos, integrações e abordagens pelas lideranças dentro do hospital. Os profissionais de saúde devem ser monitorados no sentido de que este sorriso saia de forma natural e de acordo com a vocação de cada um.


Então, sobre vocação, sem ela não seria possível ser um bom profissional de saúde, principalmente em um hospital de caráter filantrópico?



A vocação é fator determinante para que o profissional deslanche na carreira. Atualmente, testes de perfil comportamentais estão sendo utilizados na admissão de novos funcionários. Isso, de modo a evitar que um eventual profissional sem a devida aptidão ingresse na instituição e acarrete numa experiência ruim para ele e, consequentemente, ao paciente.


Em suas tentativas de melhorar as condições da Santa Casa de Guaxupé, quais já foram conquistadas? Houve algum apoio político e social?
Conseguimos uma melhoria na remuneração do serviço do Pronto Socorro através de negociação com a Prefeitura de Guaxupé, contratante deste Serviço. Também, junto ao Estado, conseguimos implantar serviços como o NAQSB (Núcleo de Atenção e Qualidade à Saúde Bucal) e o NEVH (Núcleo Epidemiológico de Vigilância Hospitalar) conforme as diretrizes do Governo Estadual. Reforçamos a área meio, sobretudo a área de Recursos Humanos, Compras, Comunicação Social e Departamento Jurídico. Conseguimos, através de ações de gestão e controle de estoque, racionar o custo da Farmácia em cerca de 25% a menos, alcançando uma economia de R$ 100 mil por mês sempre com a responsabilidade de não faltar ao paciente na ponta da linha.


Destaco avanços no Mutirão de Cirurgias Eletivas com o crescimento gradativo no número de operações. Estamos abordando diretamente os médicos e profissionais envolvidos de modo a sensibilizar toda a equipe para a redução da fila que aumentou durante a pandemia devido à paralisação por determinação do Estado.


Outro destaque é o aumento de leitos do Centro de Hemodiálise, passando a capacidade de 96 para 204 pacientes, zerando a fila de espera da microrregião e trazendo mais conforto e qualidade aos pacientes diáliticos que, por sua natureza, têm o tratamento extremamente delicado e sofrido. Fizemos uma estruturação em termos de organograma fixando lideranças estratégicas de modo a ter mais capilaridade gerencial.


Levando-se em conta que, além de Guaxupé, o hospital atende a microrregião constituída pelas cidades de Arceburgo, Cabo Verde, Guaranésia, Juruaia, Monte Belo, Muzambinho e São Pedro da União,  com a construção de uma nova policlínica haverá como desafogar o tráfico da Santa Casa e, assim, possibilitar melhores condições de trabalho no estabelecimento?
A esperança é de que o novo pronto atendimento e policlínica pela Prefeitura desafogue os atendimentos da Santa Casa. Os atendimentos mensais do Pronto Socorro chegam a ultrapassar 5.000, o que demonstra a necessidade de fortalecimento da rede como um todo, seja na atenção básica, mas também no atendimento às urgências e emergências.


Cite algumas soluções que poderiam melhorar o atendimento público de saúde no Brasil.



A correção da tabela SUS é uma das medidas urgentes para custear as despesas de um modo geral. Extremamente defasada, faz com que os prestadores, incluso a Santa Casa de Guaxupé, operem na corda bamba realizando verdadeiros milagres para que as portas permaneçam abertas

Outro fator é o crescimento do uso de tecnologias disponíveis, reduzindo a dependência humana e aumento à segurança no diagnóstico e atendimento ao paciente.

A discussão acerca do pacto federativo desconcentrando as receitas da União e dos Estados aos Municípios também pode ser fator decisivo de modo e diminuir a lógica perversa e fisiológica da política assistencialista. A orientação assertiva à população sobre a realidade e a capacidade dos serviços públicos através de uma comunicação bem feita por campanhas bem idealizadas, fazem toda diferença. Na verdade, salvam vidas. Por fim, o investimento em profissionais de saúde através de remunerações mais justas é um diferencial.



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