Morre em Poços de Caldas Walter Araújo, guardião de uma das cantinas mais tradicionais do Brasil
- Da Redação

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Morreu nesta quarta-feira, em Poços de Caldas (MG), o empresário Walter Pereira de Araújo, responsável por transformar a Cantina do Araújo em um dos restaurantes italianos mais conhecidos de Minas Gerais e um dos endereços gastronômicos mais tradicionais do país. Ao longo de décadas, ele construiu uma trajetória marcada pelo trabalho incansável, pela simplicidade e por uma relação direta e afetiva com seus clientes — características que fizeram da cantina um símbolo da hospitalidade poços-caldense.
Walter Araújo foi capa da Revista Mídia em janeiro de 2011, quando concedeu uma entrevista em que contou a história da casa que ajudou a projetar Poços de Caldas no mapa gastronômico nacional. À época, a Cantina do Araújo figurava como referência no Guia Quatro Rodas 2011, reconhecimento que consolidava o prestígio de um restaurante cuja fama ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais.
Um endereço que se tornou tradição
Quem visita Poços de Caldas dificilmente deixa de ouvir a mesma pergunta circular entre turistas: “Onde fica a Cantina do Araújo?”.
A resposta leva à Avenida Assis Figueiredo, 1075, no coração da cidade. Ali, em um ambiente acolhedor e sem ostentação, Walter costumava receber pessoalmente os clientes. Era comum vê-lo próximo à entrada, observando o movimento da casa e cumprimentando visitantes vindos de diversas partes do Brasil e do exterior.
Nas paredes do restaurante, fotografias registram a passagem de artistas, autoridades e personalidades que visitaram a cantina ao longo das décadas. Entre elas estão os ex-presidentes Tancredo Neves, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, que experimentaram os pratos que tornaram o restaurante famoso.
Uma história que começou de forma modesta
A origem da Cantina do Araújo remonta a 1955, quando o casal português João de Araújo e Edvina Pereira de Araújo, conhecida como Dona Nina, decidiu abrir uma pequena pizzaria nos fundos de uma casa ao lado do atual restaurante.

O espaço era extremamente simples: um forno à lenha, nove mesas e um cardápio enxuto que oferecia pizzas e alguns petiscos. Mesmo assim, a qualidade das massas e o cuidado artesanal na preparação dos alimentos rapidamente conquistaram a clientela.
Foi nesse ambiente que Walter cresceu e aprendeu os fundamentos do comércio e da cozinha.
O jovem que precisou assumir o restaurante
Ainda muito jovem, Walter viu sua vida tomar um rumo inesperado. Preparava-se para prestar vestibular para Medicina quando o pai morreu precocemente, aos 41 anos. Com menos de 18 anos, precisou assumir a cantina da família para garantir o sustento da casa.
O sonho de seguir carreira médica ficou para trás, mas abriu caminho para uma trajetória empresarial que marcaria a gastronomia da cidade.
“Foi uma questão de sobrevivência”, recordou ele na entrevista concedida à Revista Mídia. “Mas graças a Deus e com muito trabalho a cantina cresceu e se tornou conhecida nacionalmente.”
O comerciante que colocava a mão na massa
Apesar do sucesso, Walter nunca se considerou empresário. Preferia ser chamado simplesmente de comerciante.
No dia a dia do restaurante, mantinha uma presença constante. Preparava massas, acompanhava a cozinha e supervisionava cada detalhe do funcionamento da casa. Entre as especialidades mais conhecidas estava a Pasta Artesanal Zia Nina – Specialitá della Casa, homenagem à mãe e uma das marcas registradas da cantina.
A massa da pizza — leve e crocante — também carregava a tradição familiar. A receita havia sido aprendida com os pais ainda na época em que a família vivia em São Paulo.
Walter costumava afirmar que na cantina não havia espaço para improvisos ou atalhos.
“Aqui tudo é feito na hora. Não servimos comida requentada, servimos comida requintada”, dizia.
Uma figura marcante da cidade
Com sua presença diária no restaurante e seu jeito acolhedor, Walter Araújo tornou-se uma figura conhecida e respeitada em Poços de Caldas. Mais do que proprietário de um restaurante famoso, ele representava uma geração de comerciantes que construíram sua reputação com trabalho constante e proximidade com os clientes.
Evangélico, integrante da Congregação Cristã do Brasil, dizia acreditar que a essência da vida estava na verdade e na fé.
“Acredito que a essência da vida seja falar sempre a verdade e estar bem com Deus.”
A despedida
Em nota publicada nas redes sociais, a Cantina do Araújo prestou homenagem ao fundador e anunciou os detalhes das despedidas.
“Hoje nos despedimos do Sr. Araújo, uma das grandes personalidades de Poços de Caldas e um nome que se confunde com a própria história da Cantina do Araújo. Mais do que um empresário, foi um verdadeiro anfitrião da cidade. Um homem que entendia que servir ia muito além de colocar um prato à mesa. Ele servia presença, atenção, conversa, memória. Construiu não apenas um restaurante, mas um ponto de encontro onde gerações celebraram momentos importantes da vida.
Com trabalho incansável, simplicidade e um olhar sempre atento a cada cliente que chegava, transformou sua cantina em tradição, referência e afeto. Seu jeito acolhedor e sua dedicação diária fizeram daquele espaço uma extensão de sua própria casa.
O Sr. Araújo passou por um procedimento cirúrgico no final do ano passado e estava em recuperação, mas infelizmente não resistiu.
Em respeito à sua trajetória e à história que construiu, a Cantina estará fechada hoje. O velório será realizado no Velório Municipal, a partir das 14h. O sepultamento será às 9h desta quinta-feira.
Nos despedimos com gratidão, carinho e respeito. Seu legado permanece vivo nas lembranças, nas histórias e em cada mesa que continuará reunindo pessoas. Até sempre.”
Um legado que permanece
A morte de Walter Araújo encerra uma trajetória de mais de meio século dedicada à gastronomia e ao comércio. Mas a história construída por ele permanece viva no restaurante que ajudou a transformar em símbolo da cidade.
A Cantina do Araújo seguirá sendo, para muitos visitantes de Poços de Caldas, mais do que um restaurante. Um lugar onde tradição, memória e afeto continuam à mesa — exatamente como ele sempre acreditou que deveria ser.












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