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Especialista explica o uso de telas e o sofrimento emocional em crianças

Atualizado: 27 de mar.

Por Ariani Barboza*


O avanço da tecnologia trouxe facilidades inegáveis para a vida moderna. As telas passaram a ocupar espaço na rotina das famílias, no lazer, na comunicação e até no processo de aprendizagem. No entanto, quando o uso se torna excessivo, precoce e desregulado, especialmente na infância, os sinais de alerta começam a aparecer. E a ciência já demonstra, com consistência crescente, que esse excesso pode estar associado a prejuízos importantes no desenvolvimento emocional, comportamental e social das crianças.  


Não se trata de condenar a tecnologia, mas de reconhecer que a infância tem necessidades neuropsicopedagógicas muito específicas. O cérebro infantil está em intensa formação e depende, para seu amadurecimento saudável, de experiências concretas: brincar, movimentar-se, interagir face a face, esperar, frustrar-se, aprender a nomear emoções e desenvolver recursos internos para lidar com elas.


Quando a tela ocupa um espaço maior do que deveria, ela pode começar a competir justamente com essas experiências fundamentais.  


Hoje já há evidência robusta de que maior tempo de tela, em crianças, está associado a mais sintomas internalizantes e externalizantes. Em termos clínicos, isso significa maior associação com manifestações como ansiedade, tristeza, irritabilidade, agressividade, impulsividade e dificuldades de comportamento. Uma grande revisão sistemática e metanálise publicada no JAMA Psychiatry, reunindo 87 estudos e mais de 159 mil crianças de até 12 anos, encontrou correlações pequenas, porém significativas, entre maior duração de tela e mais problemas comportamentais, tanto internalizantes — como ansiedade e depressão — quanto externalizantes, como agressividade e desatenção.  


Esse ponto é muito importante: a ciência séria não afirma que toda tela, por si só, “cria transtornos” de maneira automática e isolada. O que os melhores estudos mostram é que o uso excessivo, sobretudo quando associado a conteúdo inadequado, uso sem supervisão, substituição do brincar, prejuízo do sono e redução da convivência familiar, pode contribuir para um terreno de sofrimento emocional e desregulação comportamental.  


Um dos achados mais preocupantes diz respeito à autorregulação emocional. Em 2024, um estudo publicado no JAMA Pediatrics mostrou que o uso de tablet na primeira infância esteve associado, ao longo do tempo, a mais expressões de raiva e frustração. O mesmo trabalho sugere um ciclo delicado: crianças mais irritáveis tendem a receber mais tela para serem acalmadas, e esse recurso, repetido como “pacificador digital”, pode enfraqauecer oportunidades de aprender a lidar com frustrações de forma madura. 


Na prática clínica e no cotidiano familiar, isso ajuda a compreender cenas cada vez mais comuns: crises intensas quando o aparelho é retirado, choro desproporcional, agitação, dificuldade para esperar, resistência a atividades fora da tela e baixa tolerância ao “não”. É essencial, porém, fazer uma distinção técnica: esses comportamentos podem estar associados ao uso excessivo de telas, mas não devem ser interpretados automaticamente como um diagnóstico psiquiátrico fechado. Eles são, antes de tudo, sinais de sofrimento, desorganização emocional e possível prejuízo na construção da regulação psíquica da criança.  


Outro eixo central dessa discussão é a ansiedade. A literatura científica aponta associação entre maior exposição a telas e mais sintomas internalizantes, incluindo ansiedade, especialmente quando o uso é prolongado, passivo, solitário ou ocorre em prejuízo do sono e das interações presenciais. Revisões críticas recentes e análises sistemáticas reforçam que esse vínculo existe, embora a intensidade varie conforme idade, tipo de conteúdo, contexto familiar e padrão de uso.  


O sono, aliás, merece atenção especial. Uma metanálise publicada no JAMA Pediatrics mostrou que o uso de dispositivos perto da hora de dormir esteve significativamente associado a menor duração do sono, pior qualidade do sono e mais sonolência diurna. Outra revisão sistemática encontrou associação adversa entre tempo de tela e sono em 90% dos estudos avaliados com crianças e adolescentes. E o prejuízo do sono não é um detalhe: dormir mal impacta humor, atenção, memória, aprendizado e estabilidade emocional. Muitas vezes, a criança que parece apenas “nervosa” ou “insegura” está também privada de sono restaurador por uma rotina excessivamente mediada por telas.  


Há ainda um aspecto menos visível, mas muito relevante: a insegurança emocional. Crianças pequenas constroem segurança interna a partir de previsibilidade, vínculo, presença responsiva do adulto e experiências reais de interação. Quando a tela vira companhia constante, distração automática ou estratégia principal de consolo, pode haver empobrecimento das trocas humanas que sustentam essa base emocional. A Canadian Paediatric Society destaca que o excesso de telas na primeira infância pode afetar áreas do desenvolvimento psicossocial e relacional, justamente porque reduz tempo de conversação, brincadeira compartilhada e interação de qualidade com cuidadores.  


A ciência também aponta que reduzir o tempo de tela pode trazer benefícios observáveis. Em 2024, uma análise de ensaio clínico randomizado publicada no JAMA Network Open mostrou que a redução do uso recreativo de telas por duas semanas teve efeito positivo sobre sintomas psicológicos de crianças e adolescentes, especialmente com melhora em questões internalizantes e no comportamento pró-social. Isso é relevante porque vai além da simples correlação observacional: sugere que, em muitos casos, reorganizar o ambiente digital da família pode produzir ganhos reais na saúde mental infantil.  


Diante desse cenário, as principais entidades médicas e científicas recomendam cautela. A Organização Mundial da Saúde orienta que crianças menores de 1 ano não tenham tempo de tela sedentário; aos 1 ano, a recomendação também é de evitar; e para crianças de 2 a 4 anos, o tempo sedentário de tela não deve ultrapassar 1 hora por dia — quanto menos, melhor. A Academia Americana de Pediatria recomenda evitar telas antes dos 18 meses, exceto videochamadas; entre 18 e 24 meses, caso sejam introduzidas, que haja conteúdo de alta qualidade e uso acompanhado; e, de 2 a 5 anos, limite de cerca de 1 hora por dia de programação de qualidade, com mediação dos pais.  


Mais do que contar minutos, porém, o desafio contemporâneo é observar função, contexto e impacto. A pergunta central não é apenas “quanto tempo a criança passa na tela?”, mas “o que essa tela está substituindo?”. Se ela substitui sono, brincadeira livre, leitura, convivência, esporte, conversa e regulação emocional mediada por um adulto, estamos diante de um problema real. Se a tela se torna a única forma de acalmar, entreter ou fazer a criança comer, há um sinal claro de dependência ambiental daquele recurso.  


A infância não precisa de hiperestimulação contínua. Precisa de presença, limite, vínculo e experiências que ensinem a criança a suportar frustrações, nomear emoções e desenvolver autonomia emocional. É justamente nesse ponto que o excesso de telas se torna preocupante: ele pode anestesiar sintomas no curto prazo, mas empobrecer competências emocionais no longo prazo.  


Por isso, o caminho não está no alarmismo, mas na responsabilidade. Famílias, escolas e profissionais de saúde precisam compreender que regular o uso de telas não é um capricho educativo. É uma medida de proteção ao desenvolvimento infantil. E proteger a infância, hoje, também significa defender o direito da criança ao brincar, ao conviver, ao dormir bem, ao tolerar pequenas frustrações e ao construir, passo a passo, uma vida emocional mais segura.


*A autora é graduada em Pedagogia pelo UNIFEG – Guaxupé; Pós – Graduada em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo – FAMEESP – FGV – Ribeirão Preto; Pós-graduanda em Análise do Comportamento Aplicada – ABA - CBI OF MIAMI; Especialista na Avaliação do Protocolo VB-MAPP; Especialista na Avaliação Comportamental na Infância e Criação do Plano Individual de Tratamento – CBI OF MIAMI; Especialista em Aplicação e Intervenção do Modelo DENVER II de Intervenção Precoce; Extensão em Psicomotricidade; Extensão em Neuropsicologia; Extensão em Consciência Fonológica; Extensão em Neurociência e Alfabetização; Extensão em Análise do Comportamento Aplicada – ABA; Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia – SBNPp; Diretora e Supervisora de Equipe da NeuroViver – Clínica Multidisciplinar.

 
 
 

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