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ENTREVISTA: Maria dos Reis Carmo, exemplo de luta e perseverança

Rosângela Felippe, jornalista



Maria dos Reis Carmo que completou 83 anos neste ano e a Revista Mídia abre espaço para homenagear esta educadora de pulso firme e determinada com seus compromissos e conceitos de vida.


Nascida na zona rural de São Sebastião do Paraíso, Maria dos Reis ficou órfã de pai com apenas 40 dias de vida, juntamente com sua irmã Benedita, de três anos de idade. Com o tempo, sua mãe casou-se novamente e teve outros filhos.


Ainda pequena, devido ao fato de o padrasto ser ferroviário, mudou-se com a família para Guaxupé e morou em vários bairros da cidade, entre eles, a região na época conhecida como Serraria. Sua mãe, Dona Rita, confiava que, vivendo em Guaxupé, os filhos teriam oportunidade de estudar, o que a deixava mais tranquila, uma vez que valorizava muito o aprendizado.


De origem muito pobre, Maria diz que nunca se revoltou com a situação em que vivia e com as dificuldades que enfrentou. Desde cedo, a vida despertou-lhe, sim, a consciência de que somente com o trabalho poderia mudar a realidade em que foi gerada: as privações, a fome, a discriminação, o trabalho infantil e, muitas vezes, a discordância de muitos quanto ao seu direito de sonhar com um futuro melhor.


Ir ao grupo escolar acompanhada pelas crianças de sua idade sem ter sapatos para calçar, lanche para comer e uniformes novos para vestir, tornou-se para ela tão natural quanto o fogão à lenha de sua casa, a privada de fossa que todos usavam no quintal e toda a rotina da periferia onde ela e seus colegas cresceram. Sabiam todos eles que, havia na cidade pessoas em melhores condições de vida, porém, não tinham oportunidade de conversar com esses moradores e ver de perto como era ter uma vida abastada.


Maria começou a trabalhar muito jovem em uma venda em Guaxupé pertencente ao Sr. Paschoal Ciarallo. Tendo em mente de que o serviço não era adequado à filha, sua mãe a levou para trabalhar com ela como catadeira de café no armazém do Sr. Olavo Barbosa. Com o salário que recebia, guardava o dinheiro para comprar material escolar e pagar a mensalidade da Academia de Comércio onde se matriculou. Porém, idealizava ser professora e não contadora. Portanto, queria mesmo era estudar no Colégio Imaculada Conceição e formar-se normalista. Mas o estabelecimento de ensino administrado pelas feiras cobrava muito caro para suas condições.


Concluído o curso na Academia junto com a irmã Dita, ambas não puderam participar da colação de grau, pois, não tinham recursos financeiros para comprar a roupa estipulada pela organização do evento. Uma vez impedidas de estarem presentes durante as solenidades, as duas irmãs tiveram de retirar seus diplomas na própria secretaria da escola sem os tradicionais aplausos da sociedade.


Um outro período de sua vida como trabalhadora deu-se aos 14 anos, quando Maria empregou-se na fábrica de calçados pertencente à família Furlan. Essa foi a primeira vez em que teve carteira assinada pelo contador, Sr. João Antonio Nicoli. Maria guarda essa carteira até hoje. Após esse emprego, foi contratada pela também fábrica de calçados do Sr. Michel Gidikian onde passou a costurar sapatos infantis. Recorda-se ela que, Sr. Michel, todas as tardes, providenciava para que fosse servido um lanche aos funcionários.

A OPORTUNIDADE DE REALIZAR O SONHO

Após diplomada pela Escola Técnica de Comércio, Maria empregou-se como contadora no escritório da fábrica de fogão do Sr. Salvio Calicchio. Uma vez que sua vocação era voltada ao ensino, sentia-se perdida no ambiente de trabalho e chorava muito, pois, frequentemente, chamavam-lhe a atenção por cometer alguns erros na contabilidade. Foi quando Padre Marcos Noronha, ciente de sua insatisfação com o serviço, contratou-a para trabalhar na secretaria da Catedral. Após um ano, aproximadamente, Dom Inácio recebeu uma carta oferecendo duas bolsas de estudos para um novo curso na Faculdade Federal do Rio chamado ‘Educadora Familiar Agrícola’. Padre Marcos, então, pediu ao bispo que desse uma das bolsas a Maria, relatando seu sonho em se tornar educadora. Dom Inácio, que na época desenvolvia um projeto (Irmãs Rurais) para que fosse criado em Guaxupé uma congregação de freiras que pudessem dar aulas às mulheres da zona rural, decidiu-se a doar uma das bolsas a Maria para que ela se preparasse para ser uma das professoras. E Maria foi para o Rio de Janeiro onde pôde estudar o que sempre quis alcançando a realização de seu sonho formando-se educadora.


Foi após a morte do Dom Inácio, em 1963, que Maria dos Reis ingressou-se no Curso de Preparação de Economia Doméstica como professora federal, projeto ligado à Escola Agrotécnica de Muzambinho. Neste mesmo período, atuou como voluntária nas funções de secretária e coordenadora na Escola Profissional Nossa Senhora Aparecida, que se encontrava no início de suas atividades. Por todo esse trabalho e dedicação à Escola Profissional, no ano de 1965 recebeu o prêmio ‘Como é Bom ser Bom’, uma iniciativa do Núcleo de Orquidófilos da cidade.


Em 1971, tirou licença de dois anos do Serviço Federal em Guaxupé, indo cursar em Belo Horizonte Artes Práticas se especializando na área de Educação para o Lar. Seu objetivo era o de, futuramente, lecionar nas escolas polivalentes e assim o fez. Concluído o curso na capital mineira, lecionou na cidade de Caeté (MG) e Passos (MG).


Em 1973, vencida sua licença do Serviço Federal, Maria cancelou o contrato do polivalente e voltou a lecionar em Guaxupé.


Quando encerrado o Curso Federal em Guaxupé, foi transferida para a Escola Agrotécnica de Muzambinho assumindo o cargo de Orientação Educacional, até sua aposentadoria, em 1988.

Maria dos Reis Carmo formou-se, também, em Pegagogia pela FAFIG com especialização em Orientação, Supervisão e Direção de Escola.


UM TEMPERAMENTO PECULIAR


Maria carrega uma forte veia filosófica. Muitas vezes, durante um diálogo, transmite ensinamentos que somente quem conheceu a vida da forma como ela a experienciou é capaz de expressá-la. São frases profundamente reveladoras que faz com que ela descreva a alma humana e o mundo em que vivemos com muita habilidade.


Certa vez, ganhou na Escola Agrotécnica de Muzambinho, um quadro com os seguintes dizeres de Langston Hugues os quais adota como um dos lemas de vida: “Nunca largue mão dos seus sonhos, pois, se eles morrem, a vida se torna como um pássaro de asa quebrada, que não pode voar”. E o que seria de Maria se ela não tivesse acreditado em seu sonho? Guaxupé, sem dúvida, deixaria de ter uma de suas mais aprimoradas educadoras.


Amante inveterada da natureza, hoje Maria tem um amplo terreno na cidade onde cultiva plantas e flores. Valorizando cada pedacinho deste chão, deu-lhe o nome de ‘Recanto de São Francisco’. O lugar tão bem cuidado sugere momentos meditativos e o contato com a paz.


Sempre ativa, Maria leva uma vida regrada e repleta de compromissos. Além de ler bons livros e cuidar do seu jardim, aprecia reunir-se com as senhoras que participam de clubes voltados à terceira idade, onde todas interagem com a alegria de viver. Acredita que, é preciso que as pessoas deixem de focar o lado negativo e olhem mais para a natureza. Desta forma, diz ela que haveria menos doença e ansiedade.


Portanto, quando ouve dizer que é preciso mudar o mundo, ela retruca afirmando que são as cabeças das pessoas que precisam mudar centrando mais nas coisas positivas. Para ela, a vida é muito boa. O que precisa é que as pessoas ajudem mais umas às outras. Mesmo reconhecendo que sua vida foi cheia de lutas, admite que dificuldades fazem parte da história de todas as pessoas, não somente da dela.

A MÃE COMO REFERÊNCIA DE VIDA


Muito devotada à fé católica, Maria dos Reis acredita na existência do céu e apregoa que todos devem se preparar bem para a morte, pois, não há como evitá-la. Certa vez, logo que sua mãe partiu, Maria ouviu de uma senhora os dizeres: “Nunca diga que você perdeu a sua mãe. Diga apenas que ela se foi para o céu e a está esperando lá para um dia abrir-lhe a porta”.

Segundo diz, o exemplo de vida que lhe serviu de base para sua luta, certamente, foi sua mãe, mulher muito esforçada e enérgica, características herdadas por ela que se lembra de Dona Rita ensinando aos filhos a nunca desrespeitar as pessoas e nem falar palavrões.


Por amor e gratidão à progenitora, Maria decidiu-se a não se casar no intento de cuidar bem de Dona Rita, trabalhar e dar-lhe mais conforto.


Dona Rita aprendeu muito pouco com o pai de Maria a ler e a escrever, e isso lhe causava profunda tristeza. Com o tempo, foi Maria quem lhe deu aulas para completar esse ensino proporcionando à mãe condições de ler a Bíblia inteira com desenvoltura.


Quando indagada se não gostaria de escrever um livro sobre sua própria história, Maria lembra-se de quando Padre Olavo lhe sugeria que escrevesse um livro a respeito de Dona Rita, pois ela exercia grande influência sobre as filhas. O padre acrescentava que, Dona Rita era formada na faculdade da vida. Maria confessa que queria muito relatar a trajetória da mãe. Porém, o tempo passou e ela acredita ser um pouco tarde para escrever alegando que, devido à idade, não se sente em condições.

MENÇÃO A DONA ROSINHA REMÉDIO


Mesmo reconhecida pelo empenho e incentivo da mãe para que pudesse construir uma vida melhor, Maria nunca se esquece de que foi sua professora do quarto ano primário, Dona Rosinha Remédio, quem também muito a encorajou a estudar e a batalhar pelos seus sonhos. Dona Rosinha a ajudou a acreditar no quanto era capaz de triunfar. Essa gratidão Maria carrega dentro de si de modo eterno e com profunda emoção.


Narrar em detalhes todas as experiências de Maria dos Reis diante das lutas que a vida lhe impôs, seria necessário escrever numerosas páginas em livro. Porém, não um livro que exaltasse angústias ou indignação, mas sim a satisfação de sua admirável vitória. Maria triunfou não pela sorte, mas pela extraordinária inteligência e coragem com as quais enfrentou os empecilhos e as várias facetas do preconceito. Ela sempre manteve a certeza de que estava em suas mãos a escolha de vencer ou perder. Escolheu vencer! Escolheu a própria razão de viver: Ser uma educadora!

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