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Elias José: o filho dos versos românticos de Pulcena

NA SEMANA EM QUE SE COMEMORA O ANIVERSÁRIO DE ELIAS JOSÉ, UMA HOMENAGEM EM FORMA DE REPORTAGEM QUE ABORDA A VIDA DO ESCRITOR SOB O OLHAR DA IRMÃ DORA ELIAS
(Foto: Arquivo / Revista Mídia)

Rosângela Felippe, jornalista


No dia 25 de agosto de 1936, a pequena Santa Cruz da Prata (Pratinha) preparou um berço com ramos de poesias para aquecer um tímido e encantador poeta que chegava ao mundo: Elias José.


Com aura enfeitada de letras e rimas, o predestinado contador de contos surgiu do ventre de uma jovem mulher que gostava de escrever poemas de amor com frases salpicadas de flores e entoadas pelo canto dos pássaros. O nome da romanesca senhora era Pulcena, mãe de oito filhos que mantinha um caderno para cada um anotando as fases de suas vidas. Alguns trechos do caderno em que escreveu sobre Elias José, o segundo filho, aqui estão citados com palavras adocicadas, como os doces de tacho da roça em que Elias cresceu. Na primeira menção ao filho, Pulcena cita a cor dos olhos de Elias como sendo azuis ao nascer. O que nos leva a crer que, com o passar dos dias, foram tornando-se escuros:


“A 25 de agosto de 1936, nasceu meu filhinho, às duas horas da tarde. Ele tem olhos azuis e cabelos escuros. Com seis meses, ele já balbucia ‘papai’. Foi batizado em Guaxupé, no dia 15 de agosto de 1940. Esse meu menino é calmo, quieto, sério e conversa igual gente grande. Ele está sempre sorrindo. A cinco de março de 1941, ele entrou para a escola. No dia 7 de setembro de 1946, o menino declamou em público seu primeiro poema: ‘Bandeira do Brasil’. Foi muito aplaudido e ficou radiante por ter falado sem errar”. (Pulcena)


Mas o diário fechou-se quando Pulcena, aos 42 anos, partiu deixando em branco as páginas seguintes da vida de Elias José. Na época, com a idade de 21 anos e sendo um dos filhos mais velhos, Elias entrelaçou as mãos com todos os irmãos para que nunca pudessem se separar: Joana, Lázaro José (Alemão), Tufi, Iracema, Dora, Iraci e Irene.

Descendente de portugueses vindos da Ilha da Madeira, Pulcena foi filha única e, como a maioria das mulheres de sua época, teve pouca escolaridade. Porém, lia e escrevia assiduamente. Seu amor pelos livros, certamente, foi a estrela guia que apontou a Elias José o caminho como escritor, poeta e mestre tão inspirador.


Pulcena não foi somente a compromissada dona de casa e mãe dedicada que, ao mesmo tempo em que embalava os filhos, exigia-lhes boa disciplina e responsabilidade. Com visão feminina muito além do seu tempo, gerenciava os negócios do marido, Sr. José Elias, atuando como seu braço direito no controle de seus investimentos como comerciante. Portanto, sua inteligência não se ateve somente à educação dos filhos, mas a um ramo profissional qualificado o qual somente os homens se sentiam capazes de administrar.


Porém, pelo amor que Elias José nutria pela avó paterna, Dona Joana, com quem muito conviveu, há de se abrir parênteses quando se refere à sua inclinação pela literatura. A jovem libanesa, que veio para o Brasil fugindo da guerra com o marido, Elias José Abdala, ao chegar ao país estabeleceu-se em Araguari(MG) onde o esposo montou um armazém cujo empreendimento progrediu muito bem. Ao enviuvar, Dona Joana foi morar na Pratinha onde residiam alguns de seus parentes libaneses e lá se fixou com os filhos. A matriarca, que pouco sabia falar português, gostava de contar histórias e revelar contos de Mil e Uma Noites aos filhos e netos. De onde muitos acreditam que o gosto de Elias em escrever contos tenha vindo, também, das narrações que ouvia da avó Joana.


Mas um verdadeiro escritor como Elias José não surge unicamente motivado por influências familiares ou sociais. Havia nele uma espontânea forma de exteriorizar sua criatividade como contador de histórias. E mesmo cercado pela notória timidez, demonstrava as próprias emoções sem hesitação. Quando escrevia, não se reprimia com a força de seus termos, com as frases audaciosas e tampouco com a impetuosidade de seus textos que surgiram, primeiramente, voltados ao leitor adulto.


Em tudo o que escrevia, foi um arremessador de inspiração sem limite, pois, o limite nunca foi o ponto final de suas obras. Com o mesmo estado de espírito, mergulhava no hemisfério dos versos, das imagens e das alegorias do mundo infantil.


Notável em diversos estilos literários, Elias foi inúmeras vezes premiado. Era múltiplo quando segurava uma caneta na mão, pois, foi contista, poeta, romancista e autor de livros didáticos criando novos leitores e despertando a mente criadora das crianças. Assim, contribuiu com o aprendizado infantil de modo divertido ao transmitir a ideia de que, preparar-se para a vida através dos livros é um caminho prazeroso.


ABRAÇANDO A LITERATURA INFANTIL


(Foto: Arquivo / Revista Mídia)

Hoje, Elias é memória gravada na pedra mais expressiva da literatura infantil brasileira. Memória essa que, além das marcas que deixou em mais de cem obras escritas, contou com o incansável trabalho da companheira Silvia Monteiro Elias que, após a morte do marido, tomou a frente do Instituto Cultural Elias José, em Guaxupé, disseminando largamente seus livros no aconchego de muitas famílias, em escolas e institutos culturais.

Silvia, Silvinha ou, simplesmente a Silvinha do Elias como também era conhecida, dizem que foi quem pressagiou o grande potencial do marido para criar contos infantis. Ao observar o modo singular com o qual Elias contava histórias à Iara, primeira filha do casal, ela o estimulou a escrever livros, também, para leitores mais jovens. E foi a partir de 1976 que Elias passou a se dedicar ao novo gênero tornando-se um dos maiores especialistas brasileiros em livros infantojuvenis.


Assim disse Elias José durante uma entrevista ao blog ‘Leitura, Literatura e Internet’ sobre seu sucesso como escritor de histórias para crianças:

“Estou vivendo uma fase encantada da minha vida de escritor. Durante o tempo em que me dediquei a escrever para adultos, a minha vida foi, até certo ponto, intelectual demais, fechada demais e sofisticada demais... um ponto muito elaborado, aquela coisa da leitura mesmo. Então, a medida que eu tomei a literatura infantil como um brinquedo que eu poderia brincar, ser menino outra vez, vi que as crianças do Brasil inteiro aceitaram o meu trabalho”.


PELO OLHAR DE DORA ELIAS



Dora, uma das irmãs de Elias José, hoje residente na cidade de São Vicente, foi administradora escolar formada pela USP. Ocupou, também, cargo de diretora efetiva, supervisora e professora de Português e Inglês. Conta Dora que, assim como ela, todos os irmãos tiveram uma infância muito feliz durante o tempo em que viveram na fazenda do pai, na Pratinha, lugar fundamental em suas vidas. Lembra-se que no vilarejo havia somente uma igreja e a população aguardava com ansiedade a vinda de um sacerdote de Guaranésia, padre Grela, que, de vez em quando, ia celebrar missa. Diz ela que, brincavam despreocupados em ruas de terra batida e estudavam todos na única escolinha da Pratinha onde lecionava uma só professora, a Dona Santinha, que os alfabetizou em classe multisseriada.


Segundo Dora, o pai, José Elias, além de fazendeiro era negociante e montou uma loja na Pratinha que todos chamavam de ‘venda’. Foi onde Elias José, na companhia do irmão Lázaro José, começou a trabalhar vendendo e comprando mercadorias de fazendeiros e sitiantes da região.


Porém, em certa ocasião, todos tiveram que deixar a Pratinha mudando-se para a cidade de Bela Vista do Paraíso, no Paraná, onde o pai comprou outra fazenda. Ocorreu que, devido a um rigoroso inverno naquele ano, a geada consumiu toda a plantação e José Elias decidiu-se voltar com a família e morar em Guaxupé.


Com a morte de Pulsena, José Elias casou-se novamente e foi morar com a segunda esposa, Dona Irene Baldini, na fazenda da Pratinha, com quem teve um casal de filhos (Isis e José Francisco). Mas os filhos do primeiro casamento permaneceram em Guaxupé porque as meninas haviam se matriculado no Colégio Imaculada Conceição e os rapazes cursavam o Colégio São Luiz Gonzaga e a Escola Técnica de Comércio.


Revela Dora que, não foi fácil ficar sem a presença da mãe em suas vidas. Assim, os mais velhos passaram a tomar conta dos irmãos menores, entre eles, Elias José que assumiu verdadeiro papel de pai, orientador e protetor. Segundo recorda Dora, houve uma ocasião em que ela contraiu anemia. Elias e Lázaro, a cada duas horas, levavam uma refeição a ela na cama para ajudá-la a se recuperar. Diz, também, que eles acompanhavam os estudos de todos e dialogavam com os mais novos com muito jeito e compreensão.


Acrescenta que, os irmãos mais velhos: Joana, Elias, Lázaro e Tufi uniram-se fortemente ao pai dando-lhe total apoio e criando fortes laços de amor entre todos os oito filhos. E essa união durou por toda a vida gerando saudade imensa dos irmãos que já se foram: Joana, Elias, Tufi e Iracema.


Dora ressalta que, o respeito que Elias José tinha pelo pai era exemplar e procurava cumprir as suas vontades. Houve um tempo em que, junto com Lázaro, teve de assumiu uma alfaiataria montada por José Elias em Guaxupé. O patriarca, com essa decisão, acreditava estar cuidando bem do futuro dos filhos para que se tornassem financeiramente independentes. O estabelecimento, de fato, foi bem sucedido, pois, além de alfaiataria, havia vitrines com vários artigos masculinos. Porém, Elias não trabalhava contente, pois, gostava mesmo era de escrever e o fazia de forma paralela às costuras. Mesmo assim, tornou-se exímio alfaiate. Era, de fato, muito diligente em tudo o que fazia. A loja tornou-se, também, ponto de encontro entre escritores e artistas. Até que, passando a ser reconhecido como escritor, Elias e o irmão venderam a loja podendo embrenhar-se pelos caminhos do magistério e dedicar-se com afinco aos livros que tanto amava escrever.


Dora acrescenta que, conta muito com a cidade de Guaxupé na preservação da memória não somente do irmão Elias José, mas de todos os seus grandes artistas. Para ela, é preciso valorizar a arte e a cultura locais em todas as circunstâncias.

Lembra que, Elias tem obras publicadas não somente no Brasil, mas também em Portugal e Espanha. Cita com orgulho algumas das premiações que o irmão conquistou como escritor: Prêmio Jabuti, várias menções altamente respeitadas, FNLIJ(Fundação Nacional do Livro Infanto e juvenil), prêmio APCA, Prêmio Adolfo Aizen (duas vezes), prêmios dos governos do Paraná e do Distrito Federal. Como educador, Elias recebeu medalhas de ouro e de prata do governo de Minas Gerais.


Quanto aos livros didáticos que o irmão deixou, enfatiza que são poesias e histórias que dão muita sustentação aos professores de todas as partes do Brasil.

Porém, muito além do talentoso e inteligente escritor, do amoroso pai de Iara, Livia e Érico, do sempre companheiro apaixonado de Silvinha e irmão muito amigo dos irmãos, Dora faz questão de mencionar a bondade de Elias, sua generosidade e a maneira especial como demonstrava amor ao próximo.


ELIAS JOSÉ POR ELIAS JOSÉ


Agosto é o mês que trouxe Elias José ao mundo e também o levou deste mundo. Mas sua postura diante da vida leva-nos a crer que jamais pensou em um dia parar de escrever. Era como se, constantemente, formasse diante dele uma longa fila de histórias aguardando a vez de serem contadas. Sabe-se que, muito pouco Elias falava sobre a morte. Afinal, sempre havia muito para ele escrever. E sua vida era mais do que viver. Sua vida era compor histórias.


Mas nessa ausência física muitos o definem, muitos o comentam, muitos o elogiam e, muitos, até tentam ser como ele. Mas para ser Elias José, não basta gostar de escrever. É preciso ter crescido correndo descalço na terra molhada do campo, frequentado uma escolinha primária humilde, ser dotado de uma timidez suavemente encantadora e, mais do que tudo, preservar a alma de menino roceiro despojado de orgulho e presunção, mesmo se sentindo vaidoso por carregar um dom que poucos recebem de Deus. Em suma, para ser como Elias José só tem um caminho: Nascer com a alma translúcida de Elias José.

Mas, o que Elias José dizia sobre si mesmo como escritor de contos e poesias infantis?

“Quase todo livro didático que se abre hoje tem uma poesia minha. Isso me encanta porque eu não fiz para guardar em minha gaveta. Eu sou vaidoso. Eu fiz para poder mostrar. Eu tenho vaidade. Eu tenho orgulho desse trabalho que escolhi. Quando a gente escolhe o trabalho e ele dá certo, maravilha, né?! Vamos soltar foguetes, dar viva, rezar para durar”.


Nota: matéria dedicada à Iara, Livia e Érico pelo aniversário de chegada e de partida de seu saudoso pai. Elias José, com quem tive a felicidade de conviver durante a minha adolescência. Fomos ‘vizinhos de porta ao lado’. A varanda da casa onde eu morava foi palco de suas visitas à minha família. Foi onde Elias, Dona Lourdes Tavares e minha mãe conversavam durante horas sobre livros, sobre livros e sobre livros. Diálogos que se tornaram perenes como livros que nunca se fecham em minha memória. (Rosângela Felippe)


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