Cooperando com o bem: o dinheiro que fica na comunidade
- Da Redação

- há 1 dia
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Em Guaxupé, parte da riqueza produzida pela própria comunidade deixou de seguir para centros financeiros distantes e passou a financiar instituições que acolhem crianças, reabilitam pessoas com deficiência e fortalecem o desenvolvimento local.
Por Ricardo Dias, jornalista
Ainda é cedo quando uma criança percorre lentamente um pomar entre ervas aromáticas, hortaliças e árvores frutíferas. Ela não está passeando. Está em terapia. O espaço filantrópico foi planejado para estimular sentidos, desenvolver habilidades motoras e ajudar na superação de uma das dificuldades mais frequentes entre crianças neurodivergentes: a seletividade alimentar.
Nada ali surgiu por acaso. Os canteiros elevados foram projetados para pessoas com mobilidade reduzida. O pomar terapêutico foi desenhado por uma equipe multidisciplinar. Os equipamentos de musicoterapia utilizados no tratamento foram adquiridos por meio de projetos sociais. Até os arreios utilizados nos cavalos seguem especificações clínicas próprias para a prática da equoterapia.
O que não aparece imediatamente aos olhos é a origem dessa estrutura. Parte dela nasceu de um modelo econômico cuja proposta desafia uma lógica consolidada do sistema financeiro tradicional: manter riqueza circulando no território onde ela foi produzida.

Essa é a lógica do cooperativismo de crédito. Desde a inauguração da agência em Guaxupé, mais de R$ 4 milhões retornaram à comunidade por meio da distribuição de resultados aos associados, de programas sociais, ações de educação financeira e investimentos comunitários promovidos pela cooperativa de crédito Sicredi das Culturas RS/MG. O valor, por si só, impressiona, mas o importante é conhecer o caminho percorrido por esse dinheiro depois que ele deixou as planilhas.
No centro multidisciplinar Equo Espaço, ele ajudou a financiar uma expansão que transformou uma iniciativa nascida para atender seis praticantes em uma estrutura que hoje acolhe aproximadamente 400 usuários da região e realiza entre 1,5 e 2 mil atendimentos mensais – todos gratuitos. “O espaço nasceu de um sonho antigo de cuidar de pessoas”, resume o fisioterapeuta Pedro Cruvinel Fernandes, fundador e diretor da instituição.
O projeto começou em 2015. Hoje reúne equoterapia, musicoterapia, terapias mediadas por animais, atendimento especializado para pessoas com transtorno do espectro autista, programas voltados à terceira idade e uma piscina terapêutica adaptada para cadeirantes e pessoas com necessidades específicas de estímulo sensorial.
Sem os recursos obtidos por meio de parcerias institucionais, afirma Pedro, boa parte dessa expansão simplesmente não teria existido. “A gente é uma associação 100% filantrópica. Sem parceiros como o Sicredi das Culturas, não seria possível oferecer os atendimentos que buscamos para as famílias”.
A afirmação ajuda a compreender uma característica pouco discutida do cooperativismo financeiro brasileiro. Enquanto bancos convencionais distribuem resultados para acionistas, cooperativas distribuem parte desses recursos aos próprios associados e direcionam outra parcela para iniciativas comunitárias. O resultado é uma circulação econômica mais curta, porém com um profundo impacto social.
Em Guaxupé, esse modelo ganhou forma em diferentes iniciativas. Desde a inauguração da agência, recursos retornaram à comunidade por meio da distribuição de resultados aos associados, do Fundo Social (antigo Programa Empreender para Transformar), de ações de educação financeira e de outros investimentos comunitários. Um dos principais mecanismos é o “Invista no Bem”. Nele, cada novo investimento realizado por um associado, gera uma doação da própria cooperativa para uma entidade escolhida pelo investidor, sem reduzir o rendimento da aplicação. A atuação também inclui ações de educação financeira, que já alcançaram mais de 500 pessoas no município.
Separadamente, cada iniciativa parece pequena. Juntas, revelam algo maior: uma infraestrutura social construída de forma gradual e indispensável para a comunidade. A ideia não é nova. Economistas ligados ao desenvolvimento regional frequentemente observam que comunidades prosperam quando conseguem reter parte relevante da riqueza que produzem. O desafio está em criar mecanismos que permitam essa retenção.

O cooperativismo nasceu justamente para responder a essa questão. Em Guaxupé, uma cidade cuja economia sempre esteve ligada à força do agronegócio, do café e do empreendedorismo local, a discussão ganha contornos particularmente interessantes. A pergunta deixa de ser financeira e passa a ser social: o que acontece quando parte dos resultados deixa de seguir para centros financeiros distantes e passa a financiar projetos dentro da própria comunidade?
No Equo Espaço, a resposta pode ser observada diariamente. Está nos idosos atendidos pelo programa “Feliz Idade com Baixa Mobilidade”. Está nas crianças que participam do projeto “Conectar-se”. Está nos familiares que utilizam a horta comunitária enquanto aguardam consultas dos filhos e nos pacientes que terão acesso à nova piscina terapêutica adaptada no Equo Espaço. São resultados que dificilmente aparecem em balanços financeiros. Mas são justamente eles que explicam porque o cooperativismo continua crescendo em diferentes regiões do Brasil.
A poucos quilômetros dali outra instituição revela uma dimensão menos visível desse mesmo modelo de cooperação.
Há mais de 60 anos, a Casa da Criança acolhe menores afastados judicialmente de suas famílias por situações de violência, abandono ou negligência. Hoje, mantém crianças em acolhimento integral e continua acompanhando outras dezenas que já passaram pela instituição, seja durante o processo de adoção, seja no retorno ao convívio familiar após a reestruturação de suas famílias.

Ali, o desafio não é crescer. É permanecer. Manter psicólogos, assistentes sociais, coordenadores, cuidadores e toda a estrutura necessária para oferecer proteção permanente exige uma engenharia financeira diária. Parte dos custos é coberta pelo poder público, mas a sustentabilidade da instituição depende de campanhas, doações, eventos beneficentes e do apoio de parceiros da comunidade. É nesse ponto que o cooperativismo também produz um efeito pouco perceptível.
Segundo a presidente da Casa da Criança, Estela Maria Maia, os recursos recebidos por meio do programa “Invista no Bem” não são destinados a obras ou equipamentos. Eles fortalecem o fundo de reserva da instituição, funcionando como uma garantia para períodos de instabilidade financeira. “Nunca sabemos o dia de amanhã. Esse recurso representa segurança para a Casa da Criança”.
A afirmação revela um aspecto raramente lembrado quando se fala em investimento social. Projetos podem ser financiados para nascer. Instituições, porém, precisam de estabilidade para continuar existindo. O trabalho da instituição não termina quando uma criança deixa o abrigo. Durante meses, continua acompanhando famílias adotivas e processos de reintegração familiar.
O dinheiro continua fazendo o mesmo percurso de sempre: passa pelas contas dos associados, circula pela cooperativa e retorna à comunidade. A diferença no cooperativismo está no destino final. Em Guaxupé, ele não termina apenas em balanços financeiros. Termina em uma criança acolhida, em um idoso reabilitado, em uma família que encontra apoio e em instituições que conseguem continuar existindo. Talvez seja essa a forma mais concreta de medir o valor de uma comunidade.
Enquanto a manhã avança, a criança volta a colher uma fruta que antes recusava experimentar. O gesto parece pequeno. Mas resume o caminho percorrido por um dinheiro que decidiu permanecer onde nasceu. Em Guaxupé, ele não termina em balanços financeiros. Continua florescendo em histórias como essa.












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