Conheça a trajetória da médica guaxupeana Arianne Monteiro Melo Angelelli

Meu nome é Arianne Monteiro Melo Angelelli, tenho 54 anos. Sou médica psiquiatra, especialista em infância, adolescência e perinatalidade, psicanalista, professora e escritora. Minha trajetória profissional foi construída longe de Guaxupé, mas, quando penso nas referências que me formaram e no lugar ao qual pertenço, é para lá que volto.
Nasci em Belo Horizonte, mas logo meus pais decidiram se mudar para Guaxupé, para ficarmos perto da família. Foi ali que vivi toda a minha infância e adolescência. Só fui embora aos 17 anos, quando passei na faculdade. Minha mãe foi a Dona Lela, que muitos guaxupeanos conheceram. Ela deu aulas em várias escolas e, mais tarde, tornou-se vereadora da cidade. Infelizmente, morreu muito cedo, com apenas 50 anos. Meu pai é o Valdosul, que também foi professor. Depois, ele se casou novamente, com a Elide, que se tornou uma pessoa muito importante em nossas vidas. Somos quatro irmãs. Aline e Karime são gêmeas. Aline seguiu um pouco os passos de nossa mãe: também se tornou vereadora e hoje ocupa o cargo de secretária da Educação de Guaxupé. Karime é enfermeira pediátrica. Alice, nossa irmã caçula, é Promotora de Justiça em São Paulo.

Tivemos uma infância muito boa. Nossos pais trabalhavam bastante, mas sempre foram cuidadosos conosco e nos incentivaram muito. Minha casa era animada: quatro meninas, uma ciumeira danada, disputas pela atenção da nossa mãe e muitas brigas. Ao mesmo tempo, éramos muito unidas.
Minha mãe foi, provavelmente, a pessoa que mais me influenciou. Éramos muito ligadas. Eu adorava ir à escola e também visitar minhas avós, que eram muito diferentes uma da outra. A mãe do meu pai morava na fazenda. Já Noêmia, minha avó materna, gostava de política, escrevia crônicas, era muito sociável e completamente apaixonada por Guaxupé. A casa da vó Noêmia era uma festa, principalmente nas férias, quando minhas tias de São Paulo chegavam com os filhos. Nós ficávamos brincando no Largo da Catedral. São lembranças que permanecem muito vivas em mim.
Quando aprendi a ler, descobri um mundo. Foi uma maravilha. Apaixonei-me pelos livros e talvez tenha ficado um pouco mais introvertida a partir daí. Lia de tudo. Lembro-me de que, ainda muito nova, encontrei na biblioteca do Dom Inácio um livro chamado “Dibs à procura de si mesmo”, que contava a história da psicoterapia de uma criança. Também assisti a um filme sobre um menino autista, “Meu Filho, Meu Mundo”, e disse à minha mãe: “Eu quero aprender como se pode tratar meninos assim”. Acho que minha vocação começou ali, muito cedo, nessa curiosidade sobre o funcionamento da mente humana. Até hoje me lembro daquele filme em detalhes.
Apesar desse lado mais introvertido, eu tinha muitas amigas. Naquela época, tínhamos bastante liberdade. Andávamos de bicicleta pela cidade, íamos ao clube nos fins de semana. Quando minha prima Daniela estava fazendo catequese, comecei a frequentar a missa das crianças na Catedral e, a partir dali, passei a fazer parte da comunidade de crianças da Igreja. Essa experiência também teve grande influência na minha formação.
Adolescência, livros, música e descobertas
Cresci cercada de livros e com muito incentivo para estudar e aprender tudo aquilo que despertasse minha curiosidade. Sempre fui estudiosa. Quis aprender violão e fiz aulas com o professor Ailton.
Comecei a tocar nas missas e depois fiz parte da comunidade de jovens da Igreja. Participava de tudo: retiros, organização da liturgia, atividades da comunidade. Adorava o Padre Esaú, que celebrava a missa dos jovens. Na adolescência, estudei um período no Ginásio, mas fiz parte da primeira turma do ensino fundamental que se formou no Colégio Dom Inácio. Éramos menos de dez alunos naquela turma de sétima série e a Lala era nossa orientadora. Foi um período muito especial. O ambiente era tão estimulante que eu não via a hora de ir para a escola. Lembro-me, especialmente, da Flavia, professora de Física; da Cecilia, professora de Inglês; e do Paulo Angelini, de Português. Foram professores muito importantes e acabaram se tornando amigos. A Flavia foi minha madrinha de crisma, esteve no meu casamento e foi me visitar quando nasceu minha primeira filha. São vínculos que atravessaram o tempo.
No colegial, meu próprio pai me dava aulas de Matemática. Não tinha jeito de não fazer a lição, não é mesmo? Mas ele era esperto: incentivava-me a resolver os exercícios mais difíceis e depois me indicava para dar aulas particulares. Aos 14 anos, eu já ensinava algumas crianças e até um seminarista que tinha dificuldade com Português. Pegava tudo o que ganhava com as aulas e comprava discos de vinil. Legião Urbana, Kid Abelha, Lulu Santos… gastava tudo com discos. Depois me apaixonei por Caetano Veloso.
Ouvia tudo e queria aprender a tocar MPB. Sempre fui muito ligada à cultura e à música.
Outra pessoa fundamental naquele período foi a bibliotecária do Dom Inácio, a “tia” Vilma. Ela se tornou uma referência para guiar minhas descobertas na adolescência. Eu até pedi licença para chamá-la de tia e ela acabou me adotando como sobrinha do coração. Nos intervalos da escola, ia para a biblioteca e ela me indicava livros, apresentando-me às maravilhas da nossa literatura. Foi ela, por exemplo, quem me apresentou Fernando Pessoa.

A saída de Guaxupé e a Medicina
O início da minha educação superior não foi tão simples. Primeiro, porque eu tinha dúvidas sobre o que realmente queria fazer. Influenciada pelos trabalhos na Igreja e pelos ideais da adolescência, decidi tentar Medicina. Mas, lá no fundo, ainda havia dúvida, porque eu gostava demais de música e literatura. Foi um choque sair de Guaxupé aos 17 anos e ir morar em uma cidade muito maior. Sentia falta de casa, do meu namorado da época e da vida que tinha em Guaxupé. Entrei direto na faculdade. Passei na USP e na Unicamp, e meus pais ficaram felicíssimos. Escolhi a Faculdade de Medicina da USP, de Ribeirão Preto, onde estudei de 1990 a 1995. Depois, permaneci em Ribeirão para minha primeira residência, até 1997.
Quando entrei na faculdade, estava feliz e triste ao mesmo tempo. Sabia que sentiria muita saudade de Guaxupé e, no fundo, estava bastante assustada. Depois de alguns meses, cheguei em casa e disse que queria abandonar o curso. Minha mãe ficou brava e insistiu que eu precisava tentar por mais tempo. Brigamos bastante naquela época. O tempo passou e somente por volta do terceiro ano da faculdade voltei a sentir que estava realmente feliz e que gostava do caminho que havia escolhido. Mais tarde, agradeci muito aos meus pais por não terem me deixado desistir.
Hoje percebo que estava um pouco deprimida naquele período. Foi também por isso que comecei a fazer análise com uma professora da Psiquiatria da faculdade. E não parei mais. Fiz análise durante mais de vinte anos. Foi uma experiência transformadora e que também me direcionou para a escolha da Psiquiatria como formação.
Psiquiatria, psicanálise e São Paulo
Apesar de morrer de saudade, estou longe de Guaxupé desde os 17 anos. Depois da formação em Ribeirão Preto, fui para São Paulo, em 1998, para fazer residência em Psiquiatria Infantil, na USP. Mais tarde, fui estudar Psicanálise e nunca mais parei de estudar. Estou em São Paulo há quase trinta anos. A cidade foi uma escolha motivada pelas oportunidades de aprimoramento profissional. Não foi fácil no começo. Havia todos os desafios de uma cidade grande e, ao mesmo tempo, os filhos pequenos para criar.
Hoje gosto demais de viver aqui. Vou muito ao cinema e ao teatro, canto no coral da USP, trabalho bastante e, graças a Deus, trabalho com aquilo de que gosto. São Paulo é uma terra de muitas oportunidades e também nos oferece contato com uma enorme diversidade, em todos os sentidos.
Minha trajetória profissional acabou se concentrando especialmente na saúde mental da criança, da família e da mulher. Atualmente, trabalho como voluntária no Hospital das Clínicas, na área de saúde mental da mulher, e sou vice-presidente do Núcleo de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Em 2018, comecei um mestrado em Psicologia para estudar a parentalidade. Foi um grande mergulho em outro campo de conhecimento e um período de muitas descobertas. Dessa trajetória também nasceu um livro sobre a paternidade.
Uma das maiores alegrias que tive foi lançar esse livro na FLIG de Guaxupé, neste ano, ao lado do querido Dr. Jorge Smargiassi, que fez comigo uma palestra sobre o tema. Foi uma experiência especialmente significativa porque, apesar de quase trinta anos em São Paulo, minhas referências e meu coração continuam sempre em Guaxupé.

Minha própria família
Sou casada há 31 anos com Cleyton. Nós éramos melhores amigos na faculdade e, em algum momento, essa amizade virou namoro e depois casamento. Tivemos dois filhos, Mariana e Rodrigo. A Mari agora também está cursando Psiquiatria, enquanto Rodrigo estuda Física, na USP. É interessante olhar para os caminhos que eles estão construindo e perceber como, de alguma maneira, a história de uma família continua se desdobrando através das gerações.
O chão sobre o qual caminhamos
A escritora Lia Luft dizia que a infância é o chão no qual a gente pisa a vida inteira. Eu concordo demais. Sinto que sou um pouco como minha mãe e um pouco como meu pai. Dele, herdei a pulsão de vida e a espontaneidade. Da minha mãe, o gosto por aprender, a vontade de fazer diferença e de fazer as coisas com capricho. A família é o nosso chão. A gente precisa se descolar, se desprender dela para se tornar uma pessoa com um contorno próprio. Mas, quanto mais o tempo passa, mais percebemos o quanto ter sido sonhado e investido por aqueles que vieram antes de nós é que nos permite ser alguém no mundo.
Hoje, o que sinto é uma gratidão que só aumenta conforme amadureço. Talvez por isso a distância nunca tenha mudado a resposta que dou quando alguém me pergunta de onde sou. Eu digo: sou de Guaxupé.
Guaxupé é uma cidade linda e a terra dos meus ancestrais. Estar nas páginas da Revista Mídia, que conta as histórias das pessoas desta cidade, é uma honra para mim. A sensação de pertencimento é uma grande felicidade, e é isso que sinto quando penso em Guaxupé. Porque Guaxupé é assim: uma vez que tenha sido a nossa terra, será sempre.












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