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A longa viagem de Menotti del Picchia a Guaxupé

Por Sílvio Reis, jornalista*



(Fotos: Reproduções)

A Longa Viagem é o título de dois livros de memória de Menotti del Picchia, um idealizadores e participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Cinco anos antes, em 1917, Menotti lançou o livro de poesia Juca Mulato, que teve mais de cem edições e vendeu cerca de 40 milhões de exemplares no Brasil e no exterior.


O terceiro volume de memórias daria continuidade a três décadas de atuação política de Menotti (1930-60), além de vivências artísticas e pessoais. A autobiografia foi interrompida em 1974, após a morte da segunda esposa do escritor, Antonieta Rudge. Se outros livros de memória fossem escritos, poderia ser incluído os mais de 20 anos em que Menotti visitou Guaxupé.


Essa história guaxupeana tem relação com Sulamita, a sexta filha do casal Menotti e Francisca da Cunha Rocha Sales, chamada pelo marido de Pitutica. Sula nasceu no réveillon de 1921 e 22. Quarenta e dois dias depois começava a Semana de 22. Quando jovem, ela estava num cinema de São Paulo e foi atraída por um quadro de fotos dos formandos de engenharia da Mackenzie. Ao ver o guaxupeano Luiz Antônio Leite Ribeiro, determinou que se casariam, mesmo sem conhecê-lo.


Numa viagem a São Vicente, SP, os dois se encontraram casualmente na praia. Luiz se aproximou. Namoraram, casaram e tiveram três filhos: Luiz (Filho), José Roberto e Thaís. Moraram em São Paulo até 1988, e visitavam com frequência a fazenda Bom Jardim, em Guaxupé, da família de Luiz. Foi o local escolhido por Menotti para constantes viagens de descanso


As duas pinturas de parede, na casa da fazenda, foram concluídas em 1966, mas Menotti visitava o município mineiro bem antes. Ele teve indicação para conhecer, na cidade, o alfaiate Jovino Leite. Gostou tanto dos ternos que passou a chamá-lo de Dener, o famoso estilista das celebridades, na época.


Há poucos registros orais desse período. Segundo o filho do alfaiate, Sérgio Antônio Leite, todas as vezes que vinha a Guaxupé o autor de Juca Mulato trazia linho para o pai produzir os ternos. Assim foi por uns vinte anos. Quando a artista plástica e taróloga Sara Abrão Jorge era criança, pedia que a mãe Anésia Rodrigues Jorge a levasse ao alfaiate vizinho, para conversar com Menotti. A menina valoriza as visitas do famoso escritor à cidade.


Muito comunicativo, Menotti atraía pessoas nas caminhadas rurais que fazia. Também era procurado por grupo de estudantes e jovens da cidade para falar sobre literatura e a Semana de 22.


Homenagem de Guaranésia em 1926


Na vizinha Guaranésia, a 12 km de Guaxupé, o livro de poesias Máscaras foi adaptado para o palco em 1926, no 1º Festival de Arte da cidade de Guaranésia. O governador de Minas Gerais visitava o município na ocasião. A segunda montagem dessa peça foi em 1996, pelo Teatro Experimental de Guaranésia, TEG, dirigida por Alberto Emiliano. Com mais de dois anos em cartaz, superou vinte apresentações em cidades mineiras e paulistas. Ganhou prêmios em dois festivais.


Em 2001, a homenagem guaranesiana foi ainda maior, com a criação do Grupo de Teatro Máscaras, que comemorou vinte anos de atuação em 2021. A primeira peça montada foi menottiana: O Amor de Dulcinéia. Em 2015, o Grupo fez a terceira versão de Máscaras e recebeu prêmios em festivais.



A TV Cultura gravou Máscaras e incluiu um depoimento do autor. Está disponível no site de Itapira, www.casademenotti.com.br Já o romance Salomé foi adaptado para telenovela na Globo, em 1991, no horário das 18h. Maria Helena Gonçalves Silva morava e trabalhava na Bom Jardim desde 1967, mas não associou Menotti à telenovela. O filho dela, o engenheiro de qualidade e produção Juliano Gonçalves Silva, também morou na fazenda e só soube que Menotti era pai de Sulamita quando assistiu a Um só coração, na TV Globo, em 2004.


A minissérie abordou a Semana de 22. Menotti foi um dos personagens. Mas não deu tempo de Juliano conversar sobre o escritor. Sulamita Del Picchia Leite Ribeiro morreu no Natal de 2004. No jazigo da família Urbano Leite Ribeiro, em Guaxupé, há uma poesia gravada do livro Deus sem Rosto.


Patrimônio cultural na fazenda


É uma viagem no tempo ouvir os relatos da neta Thaís Ribeiro Marinho sobre a produção dos dois painéis na casa na fazenda. Sulamita e a filha fizeram marcações na parede para Menotti pintar personagens do livro Juca Mulato. Ele usou leite e arroz nesse processo artístico. Matérias-primas diferenciadas eram comum para o artista. Na tela Dom Quixote e Sancho Pança, que complementa o livro O Amor de Dulcineia, a pintura foi em um saco de café. Misturou tinta de cabelo com tintas convencionais de pintura.


Thaís foi modelo para o avô criar a personagem que representa a filha do patrão (acima e à esquerda da tela). O Juca Mulato do painel (abaixo e à direita) tem a cara do Pelé. Para elaborar o feiticeiro (abaixo e centralizado), Menotti pintou suas próprias feições. Se Sulamita não alertasse o pai, haveria um autorretrato no painel. O cachorro pintado na porta da casa era o Sherlock, morador das imediações da fazenda. O painel Santa Ceia, na mesma sala da fazenda e em tamanho bem menor, tem quatro apóstolos ao lado de Jesus: São Tomé, São João, São Pedro e Judas Iscariotes. Da mesma forma que A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, o modernista deu características femininas ao profeta João, para possibilitar livre associação com Maria Madalena.




Na fazenda, Menotti escrevia à noite. No dia seguinte mostrava o texto inédito para a filha Sula. Não se sabe a quantidade de escritos, artes visuais e esculturas produzidas pelo artista em Guaxupé. Até as recordações dos familiares são escassas. Thaís se lembra que o avô gostava de tomar leite de vaca, tirado na hora, com conhaque. “Tudo para ele era poesia. Via coisas que a gente não via. Nós ficamos mais observadores convivendo com ele.” A neta observou que o avô adormecia quando lia revistas, exatamente quando estava numa página que havia uma mulher interessante.


Artes, amores e política


Menotti nasceu em 1892, em São Paulo. O batizado dele revelou a identificação política de Luiz, o pai. O nome Menotti homenageou dois revolucionários: o filho de Anita e Garibaldi, Domenico Menotti Garibaldi, e o italiano Ciro Menotti. Naquele final do século XIX, o padre exigiu que o primeiro nome fosse bíblico. Ficou Paulo Menotti del Pichia.


A família Del Picchia morou em São Paulo até se mudar para Itapira, SP, quando Menotti tinha seis anos. Os cinco irmãos participavam dos encontros políticos e culturais promovidos pelo pai. Essa influência paterna pode ter contribuído para a precocidade artística de Menotti, que atuou nas cinco das sete artes: Literatura, Escultura, Pintura, Teatro e Cinema.


Aos 11 anos, fez a escultura do busto de um cardeal. Um ano depois publicou uma crônica no jornal. Aos 13, no colégio mineiro de Pouso Alegre, fundou um jornal, o primeiro de vários periódicos ao longo do tempo. Aos 20, casou-se com a itapirense Francisca e foi pai. Aos 21, formou-se em Direito e publicou o primeiro livro, Poemas do Vicio e da Virtude, em 1913.


Com o irmão José trabalhou com cinema a partir de 1920. A Independência Filmes contava com o assessor Lima Barreto, que tempos depois se tornou escritor. A produtora fez o documentário para o 1º centenário de independência do Brasil, comemorado em 1922.

Também produziu um institucional sobre a fundação do município Presidente Prudente.


Numa época de cinema mudo, inovou com filmes falados, como Alvorada de Glória, Acabaram-se os Otários e O Campeão de Futebol.


Foi na literatura que Menotti mais se destacou, com quase 50 livros publicados, divididos em poesias, romances, contos, crônicas, livros infantis, ensaios e peças teatrais. Tornou-se membro da Academia Paulista de Letras, em 1929, e imortal da Academia Brasileira de Letras, ABL, em 1943. Irreverente, Menotti já andou por São Paulo com a espada da ABL. Das artes para o amor e a convivência diária com mais uma arte, a Música. Menotti conheceu a pianista Antonieta Rudge numa apresentação em Araraquara. Em 1924, ela se separou do marido Charles Miller, que trouxe o futebol para o Brasil, e viveu um relacionamento de 40 anos com Menotti, também separado.


Ele se manteve um pai muito presente para os sete filhos. Thaís informa que todos os sábados o avô almoçava na casa de Sulamita, em São Paulo. Ela acrescenta que a avó Francisca não comentava sobre a outra família do ex-marido. Mas antes de ela morrer, no início de 1968, Menotti pediu desculpas a Pitutica. Nesse mesmo ano, ele se casou com Antonieta. Thaís acredita que o avô tinha outro affair. Pode ser a jovem pintada na tela Máscaras.


Política e centenário


A extensa carreira política de Menotti ultrapassou os cinco mandatos como deputado estadual e federal por São Paulo. O administrador de empresa Osmar Baptista Silva, casado com a neta Laís, publicou informações exclusivas no livro Meus encontros com Menotti. Perguntou por que o “avô” se tornou assessor de Getúlio Vargas depois de ter sido porta-voz do Partido Republicano Paulista, opositor ao golpe que derrubou Washington Luís em 1930. A resposta surpreende. Menotti foi preso por ordem getulista.


Em 1982, com 90 anos, Menotti comemorou o título de Príncipe dos Poetas. Tinha 17 netos e 23 bisnetos. Os descendentes aumentaram com os tataranetos. Segundo Laís, filha de Maria Astyris Del Picchia e Luiz Mendes Gonçalves Júnior, somente Luiz Antônio Leite Ribeiro Filho (Totonho) entrou para a política. A esposa Maria Dulce Leite Ribeiro comentou que o neto e o avô eram inseparáveis, principalmente quando o escritor vinha em Guaxupé. Totonho foi vice-prefeito de Guaxupé entre 1989 e 1992. No último ano de mandato, o Correios lançou o selo comemorativo de 100 anos de nascimento de Paulo Menotti del Picchia. O lançamento poderia ser em São Paulo ou Itapira. Escolheram Guaxupé para um grande evento, em 30 de novembro de 1992. Nessa data, o neto Totonho já tinha vencido a eleição para prefeito de Guaxupé (1993-1996).


O advogado Inaudi Carnevalli era presidente da Câmara Municipal nessa época e foi convidado para a comemoração no Clube Guaxupé. Hoje, ele avalia que a homenagem centenária atraiu mais de duzentos participantes no Clube. Teve leitura de poesia, exposição de fotos, livros, quadros e objetos do escritor.


Paulo Menotti del Pichia morreu em 1988, aos 96 anos. Nessa longa viagem a Guaxupé muitas histórias não foram registradas, mas ainda podem ser reveladas.


*O autor é colaborador da Revista Mídia.



1 Comment


São histórias que não podem ser esquecidas. Parabéns a vocês por abrir esta página talvez tão desconhecida por tantos guaxupeanos.

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