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A força da Cooxupé: mais de R$ 810 milhões chegam aos cooperados e às comunidades

Entre março e agosto de 2026, sobras, recursos recuperados após uma batalha judicial de 11 anos e investimentos na saúde revelam como a escala da maior cooperativa de café do mundo se traduz em renda para produtores e impacto social nas regiões onde atua.


Até setembro de 2026, mais de R$ 810,3 milhões foram direcionados pela Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé, a Cooxupé, aos seus cooperados e às comunidades de sua área de atuação. O número é expressivo. Mais importante, porém, é compreender o que existe dentro dele - e o que acontece depois que esses recursos começam a circular.


São três movimentos de naturezas distintas. Em março, R$ 185,6 milhões foram destinados aos cooperados na maior distribuição de sobras da história da cooperativa. Em agosto, mais de R$ 622 milhões começaram a retornar aos produtores alcançados por uma decisão judicial definitiva relacionada ao Funrural, depois de uma disputa de 11 anos. No mesmo período, R$ 2,7 milhões foram destinados a 79 hospitais municipais e oncológicos de Minas Gerais e São Paulo, nas cidades onde há a atuação da cooperativa. Somados, os valores ultrapassam R$ 810,3 milhões. Mas não se deve confundi-los. As sobras decorrem do resultado da atividade cooperativa. Os recursos relacionados ao Funrural pertencem aos produtores e resultam de um direito reconhecido judicialmente. As doações aos hospitais são uma iniciativa social da própria Cooxupé.


O que os aproxima é o destino. Em diferentes proporções e por mecanismos inteiramente distintos, os recursos chegam aos produtores ou às estruturas sociais das regiões onde eles vivem. É essa capilaridade que transforma uma soma financeira extraordinária em um fenômeno econômico regional. Esses três movimentos ocorridos entre março e agosto não constituem uma única operação mas, observados em conjunto, revelam algo sobre a capacidade econômica de uma organização cooperativa. Primeiro, gerar resultado e devolver parte dele aos associados. Segundo, utilizar sua escala institucional para defender interesses que produtores isolados teriam maior dificuldade de sustentar. Terceiro, direcionar recursos próprios para estruturas essenciais das comunidades onde esses produtores vivem.

Ao longo desta reportagem especial, o REVISTA MÍDIA detalhará separadamente cada uma dessas frentes: a histórica devolução relacionada ao Funrural, os recursos destinados aos hospitais e a distribuição recorde de sobras. Os números explicarão uma parte da história. A outra estará nas propriedades, nas famílias e nas cidades pelas quais esses recursos começarão a circular. Mais de R$ 810 milhões podem ser contabilizados com exatidão. O valor econômico e social produzido quando essa riqueza se espalha por milhares de produtores e centenas de municípios é consideravelmente mais difícil de colocar no balanço.


Uma cooperativa grande que reúne milhares de pequenos


A Cooxupé opera numa escala que parece, à primeira vista, incompatível com o perfil de sua base. A cooperativa reúne mais de 22 mil associados em mais de 370 municípios do Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e Média Mogiana Paulista. Exporta café para 50 países e encerrou 2025 com faturamento de R$ 16,99 bilhões. Mas, entre os cooperados que pertencem a cooperativa, 97,6% são mini e pequenos produtores. Essa combinação é central para compreender tanto a dimensão econômica da Cooxupé quanto o significado dos recursos movimentados neste ano. “O cooperativismo permite que milhares de produtores relativamente pequenos operem, coletivamente, numa escala que individualmente não possuiriam. Armazenamento, logística, assistência técnica, comercialização internacional e representação institucional são compartilhados”, diz o presidente da Cooxupé, Carlos Augusto Rodrigues de Melo.


A escala nasce da base. Em determinados momentos, como os registrados neste ano, parte dos benefícios produzidos por essa escala percorre o caminho inverso. Volta para ela.


R$ 185,6 milhões produzidos pela própria atividade


O primeiro movimento ocorreu em março. A Cooxupé havia encerrado 2025 com os maiores números de sua história: faturamento de R$ 16,99 bilhões e resultado de R$ 470,3 milhões. A Assembleia Geral Ordinária aprovou a distribuição de R$ 185,6 milhões em sobras aos associados, também um recorde. Para uma cooperativa, sobras possuem significado diferente do lucro de uma companhia convencional.


Depois das destinações legais, estatutárias e das deliberações de sua governança, parte do resultado pode retornar aos associados de acordo com as regras do modelo cooperativista. Nesse caso, o resultado de uma organização de escala global volta a uma base formada predominantemente por pequenos produtores. A importância não está apenas no valor individual recebido por cada cafeicultor.


Está na dispersão geográfica dessa renda. São milhares de propriedades distribuídas por centenas de municípios.


R$ 622 milhões e a capacidade de agir coletivamente


O segundo movimento possui outra origem. Depois de 11 anos de disputa judicial, uma decisão definitiva afastou a incidência do Funrural sobre operações de exportação de café realizadas pela Cooxupé em nome de seus cooperados. Mais de R$ 622 milhões começaram a ser devolvidos aos produtores alcançados pela decisão. O caso oferece talvez a demonstração mais clara da missão econômica da escala cooperativa. Grandes produtores e grandes empresas possuem maior capacidade para sustentar disputas tributárias complexas durante uma década. Para milhares de pequenos cafeicultores, fazê-lo individualmente seria muito mais difícil. A cooperativa concentrou essa capacidade de representação. A consequência agora se dispersa. Em um município de aproximadamente 17 mil habitantes citado pela direção da Cooxupé, cerca de 2.600 cooperados receberam conjuntamente R$ 52 milhões. O dado é revelador pelo tamanho, e pela concentração temporal. Quando dezenas de milhões de reais ingressam numa pequena economia em curto espaço de tempo, os efeitos dificilmente permanecem restritos à agricultura.


Do campo para a economia local


A cafeicultura possui uma característica que torna essa circulação particularmente relevante. Grande parte da produção ocorre em municípios pequenos e médios, nos quais a renda agrícola mantém relação estreita com a atividade urbana. Uma parcela do dinheiro recebido pelo produtor volta à propriedade na forma de fertilizantes, máquinas, equipamentos, mão de obra e investimentos. Outra alcança comércio e serviços. Fornecedores recebem e também gastam. Trabalhadores consomem. Empresas investem.


Economistas descrevem esse processo como efeito multiplicador. Determinar seu tamanho exigiria conhecer quanto dos recursos será poupado, investido ou consumido localmente, além da estrutura econômica de cada município. Portanto, seria imprudente atribuir aos R$ 810 milhões um impacto final específico sem esse levantamento.


É razoável, contudo, concluir que a repercussão econômica será superior ao valor da transferência inicial sempre que parte relevante desses recursos continuar circulando nas próprias regiões produtoras. E isso ocorre em territórios nos quais o café já possui elevado peso econômico.


Impacto na Saúde


Os R$ 2,7 milhões destinados a 79 hospitais têm um significado diferente. As doações alcançam hospitais municipais e instituições de Minas Gerais e São Paulo. A iniciativa começou em 2020, durante a pandemia, e passou a ter continuidade. Desde então, R$ 13,9 milhões foram destinados pela Cooxupé a instituições hospitalares.


Nesse caso, procurar um retorno financeiro seria perder o ponto. Um hospital melhor equipado não aumenta diretamente a receita de uma propriedade cafeeira. Mas aumenta a capacidade de uma comunidade de atender quem vive e trabalha nela.


Em Rio Paranaíba, por exemplo, os recursos desta etapa serão utilizados no novo hospital municipal, cuja capacidade deverá passar de 21 para 84 leitos. É infraestrutura social - menos facilmente mensurável em retorno financeiro, mas fundamental para a qualidade de vida e para a própria capacidade de desenvolvimento de uma região.


REALIDADE ECONÔMICA E SOCIAL


Há uma tentação natural diante de números dessa magnitude: somá-los e considerar o resultado como medida suficiente do impacto.


Os R$ 810,3 milhões dizem quanto dinheiro está envolvido mas não quanto desse montante permanecerá nas regiões produtoras, quantos investimentos provocará, quantos negócios financiará ou quanto acrescentará à renda disponível das famílias. Tampouco medem adequadamente aquilo que não possui preço de mercado imediato. Assistência hospitalar, segurança econômica de uma pequena propriedade, capacidade de atravessar uma safra difícil ou possibilidade de investir na sucessão familiar são efeitos que dificilmente cabem numa única estatística.


Há, portanto, duas dimensões. Uma é financeira e perfeitamente mensurável: mais de R$ 810,3 milhões. A outra é econômica e social. É dispersa, multiplica-se por milhares de decisões individuais e atravessa centenas de municípios. Essa é muito mais difícil de calcular.


A dimensão territorial ajuda a explicar por quê. Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e Média Mogiana estão entre as regiões mais importantes da cafeicultura brasileira. Em muitos de seus municípios, o desempenho do café influencia diretamente no comércio, emprego, serviços e arrecadação. Quando a renda do produtor cresce, a economia local tende a sentir seus efeitos.


Quanto menor e mais dependente da agricultura for o município, maior pode ser a importância relativa dessa movimentação.

 
 
 

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